Paulo Henrique Cremoneze: Apesar dos governos, crescer

"Nosso objetivo é a VITÓRIA”

Em meu último artigo para a coluna disse que apesar dos graves problemas econômico-sociais decorrentes da pandemia de covid-19 poderíamos nos animar. O comércio exterior mostrava algum vigor. E o porto de Santos seria o termômetro das esperanças.

A expectativa positiva se confirmou. No dia 19 de março, A Tribuna publicou uma matéria do Estadão, assinada por Cristian Favaro, em que se noticiava um crescimento na movimentação de cargas no Porto de Santos.

No primeiro trimestre houve crescimento de quase 6% em relação ao primeiro trimestre do ano passado. Nem os problemas políticos nem a pandemia conseguiram impedir o crescimento dessa atividade comercial. Ao menos até aqui. Possivelmente haverá algum revés nos números depois de abril.

A situação porém está muito longe do ideal, e os efeitos danosos da pandemia ainda se farão sentir com mais força. Mas este crescimento me autoriza a dizer: apesar de governos e legisladores, o país avança com as próprias pernas.

A tradição ocidental e a tradição oriental nos ensinam muito a partir das flores. Segundo os orientais, especialmente os japoneses, a flor de lótus é tão magnífica que mesmo nascendo no meio do pântano exibe a singularidade de sua beleza ímpar e a doçura de seu perfume, sobrepondo-se aos odores do lodo e das plantas mortas. Já a tradição ocidental, desde a primavera da Idade Média, faz da rosa o símbolo do amor e da pureza; com suas lindas pétalas, superfície macia, deixa transparecer aquele perfume inconfundível, que quase nos faz esquecer dos espinhos. Não à toa é o símbolo de muitas casas reais da Europa. E da própria Virgem Maria.

Em meio ao lodo nasce a exuberância da flor que muito encanta e seduz o olfato dos orientais; os espinhos podem incomodar, mas não retiram da rosa toda a beleza e todo o perfume. As flores são o trabalhador brasileiro; os governos, o pântano burocrático que os rodeia. Apesar dos governos, apesar do Estado, que pesa com sua ineficiência custosa, que mais atrapalha do que ajuda, os negócios continuam a florescer, vencendo pela resistência esperançosa e pela resiliência fiel as adversidades que lhes aparecem e os infortúnios que os oprimem.

A cada dia me convenço mais de que, salvo alguns nichos de eficiência nos Poderes Executivo e Legislativo, nós, brasileiros, só podemos mesmo contar com o Poder Judiciário. O Poder Judiciário é eficiente, é produtivo e, bem ou mal, faz a sua parte. Cumpre com os deveres institucionais. Sou advogado e, por ter alguma atuação internacional, dou testemunho fiel: a Justiça Brasileira é reconhecidamente uma das melhores do mundo.

Ressalvado o papel da Justiça, o Estado é bastante criticável. Um enorme entrave ao desenvolvimento do Brasil. Seria exagero? Não creio; e dou alguns exemplos desta descrença política: 1) faz décadas que a dragagem do Porto de Santos é um problema e faz décadas que quase nada é feito para o solucionar; 2) furtos e roubos de cargas são fenômenos comuns e praticamente nada é feito para uma diminuição razoável das ocorrências; 3) a ditadura do modal rodoviário é um gargalo logístico seríssimo, e quase nada se faz em favor do transporte ferroviário e da navegação de cabotagem; e 5) o derramamento de óleo nas praias do nordeste completará um ano muito em breve, e até agora não apuramos o navio responsável.

Fiz questão de usar apenas exemplos desta coluna para mostrar a incompetência do Estado brasileiro. Não importam as cores ideológicas do governo, todos, absolutamente todos, deixam muito a desejar.

A intenção não é transformar a coluna em um muro de lamentações seculares. Quero apenas mostrar que o exercício da cidadania no Brasil ainda carece de músculos. Vive tísico, cambaleante e quase sem vigor. Inegavelmente ainda há para ser feito neste campo.

Por outro lado, em que pesem erros e defeitos, merecem elogios os empreendedores e trabalhadores brasileiros. Pois, mesmo diante de tantos problemas e da falta de carinho do Estado, o país progride e avança. Ainda que com timidez, é verdade. Mas caminha, otimista.

Porque de fato vamos superar a pandemia e a crise econômica. Vamos prosperar em meio ao cenário adverso. Porque somos corajosos, destemidos, batalhadores. Sabemos que da política não há de vir a melhor das alianças. Por isso, enquanto povo, temos de nos esforçar mais do que nossos pares britânicos, alemães, franceses, italianos, espanhóis, portugueses, japoneses e americanos. Porque só temos uns aos outros, e, como armas, a fé em Deus, a criatividade e o trabalho duro. Nessas armas nos fiamos e com elas seguimos adiante.

No início da Segunda Guerra Mundial, quando a máquina de guerra alemã parecia invencível, perguntaram a Winston Churchill qual era o objetivo dos britânicos: “Vocês me perguntam qual é nosso objetivo? Eu lhes direi em uma palavra. Nosso objetivo é a VITÓRIA”.
 

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