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Sexta-feira

10 de Julho de 2020

Milton Lourenço: Um pouco mais de bom senso, senhores

Oxalá o bom senso ainda possa prevalecer integralmente, de modo que o governo e a sociedade civil atuem de maneira conjunta

Existe uma máxima no mundo dos investidores segundo a qual “o capital é medroso”. Infelizmente, neste momento de dificuldades causadas pela pandemia de coronavírus (covid-19), essa máxima está sendo aplicada em relação ao real, muito mais em consequência da postura do presidente da República do que pelas condições financeiras efetivas do País, condições essas que só não são mais nocivas à economia nacional em razão da credibilidade da equipe econômica, que é composta por profissionais de alto nível e credibilidade tanto no Ministério da Economia como no Banco Central.

Já os demais titulares dos ministérios, na maioria, demonstram, praticamente, o mesmo despreparo do presidente da República, que, aliás, estava evidente desde a campanha eleitoral. Assim, com tantos problemas a serem resolvidos em várias áreas, a impressão que passa o governo é de que as rusgas pessoais, os problemas menores e as brigas com adversários políticos são as maiores preocupações da administração pública federal. 
Aliás, lamentavelmente, esse comportamento parece enraizado na cabeça da maioria dos ministros, que procuram só se manifestar com palavras que agradam ao chefe, quase sempre falseando a realidade.

Na reunião ministerial transmitida pela TV, por força de liminar expedida pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Celso de Mello, a se levar em conta a postura dos ministros, parecia que o Brasil não estava sendo assolado por uma pandemia, com milhares de brasileiros infectados e um número cada vez mais crescente de mortos. Ou seja, em vez do presidente e seu ministério estarem planejando a retomada da economia após esse flagelo para a saúde pública, o que se via eram atos intempestivos e menores – alguns de ordem exclusivamente pessoal –, muitos deles eivados de palavras de baixo calão.

Tornadas públicas essas manifestações deletérias, o que se espera é que, daqui para frente, a alta administração federal adote uma postura mais séria e compenetrada, preocupando-se principalmente com medidas que possam reativar a nossa economia. Isso implica dizer que as reformas tributária, fiscal e administrativa, bem como os processos de privatização, devem ser implementados com a máxima urgência. E mais importante: que o governo alivie a carga burocrática que pesa sobre os ombros do País.

Nesse sentido, o presidente Bolsonaro precisa colocar todo o seu empenho e esforço na implementação dessas reformas, o que, em razão da composição heterogênea do Congresso, não constitui tarefa fácil. Mas, seja como for, o fato é que, se essas reformas não ocorrerem, o principal mandatário poderá deixar de lado qualquer pretensão de um segundo mandato.

Para o segmento do comércio exterior, até agora, as atitudes extemporâneas da cúpula ministerial não têm significado maiores prejuízos, já que o desempenho da exportação continua em ascensão, em especial as commodities agrícolas e o minério de ferro que são destinados a China, nosso maior parceiro comercial há alguns anos. Nem mesmo as referências pouco elogiosas àquela nação, feitas por personagens do alto círculo presidencial, têm prejudicado a balança comercial dos dois países, já que a China depende em boa parte de nossos produtos agrícolas para alimentar o seu povo e do minério de ferro para sustentar seu desenvolvimento econômico.

Portanto, o que se espera é que o empresariado continue apostando na viabilidade de seus negócios no País, liderando a recuperação econômica, até porque o insucesso custará muito para todos. Em outras palavras: oxalá o bom senso ainda possa prevalecer integralmente, de modo que o governo e a sociedade civil atuem de maneira conjunta.

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