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Quinta-feira

13 de Agosto de 2020

Milton Lourenço: Para sair do fundo do poço

A atual recessão, provocada pela pandemia de coronavírus (covid-19), é a pior dos últimos 40 anos, de acordo com estudos da Codace, ligado ao instituto Ibre da FGV

Estudo elaborado pelo Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace), órgão ligado ao Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), mostra que a atual recessão, provocada pela pandemia de coronavírus (covid-19), é a pior dos últimos 40 anos, considerando-se que não há dados sobre a retração que marcou a chamada Grande Depressão de 1929, que é apontada como o período recessivo mais grave do século XX. Criado em 2004 com o objetivo de analisar os ciclos econômicos do País, o Codace, em seus estudos, leva em conta dados de produção, renda, emprego, vendas e outros fatores coletados desde 1980.

Segundo o estudo, a produção industrial de transformação no primeiro trimestre deste ano, em relação ao consumo de 2019, caiu 31,3%, as vendas do comércio varejista baixaram 27,1% e o setor de serviços sofreu uma retração de 17,3%. Mais: nesse período, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro caiu 1,5%, mas as projeções para o segundo semestre prevêem uma queda em torno de 10%. 

Hoje, poucos economistas se atrevem a projetar qualquer índice para o terceiro trimestre, já que não se sabe se ainda haverá uma segunda e terceira ondas de contágio da covid-19. E tampouco se tem ideia da eficácia das vacinas que os laboratórios vêm procurando produzir para combater a pandemia.

Mesmo assim, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), fundação vinculada ao Ministério da Economia, prevê queda nas exportações entre 11% e 20% até o final do ano, estimando que as vendas caiam para um patamar inferior a US$ 200 bilhões. É de se lembrar que, em 2019, período em que se registrava sinais de recuperação da recessão iniciada em meados de 2014, as vendas para outros países chegaram a US$ 225 bilhões. 

Já a Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima uma queda de 8,25% no volume das exportações, o que equivale a US$ 18,9 bilhões. Para as importações, a previsão do Ipea é de uma queda ao redor de 20% em 2020 em comparação com 2019. Obviamente, tanto a demanda de exportações como a de importações deverão se dar de modo gradual em todo o planeta, no período pós-pandemia.

Apesar desse panorama incerto e dessas previsões um tanto catastróficas, o que se pode dizer, pelo menos especificamente na área de serviços de comércio exterior, é que, por enquanto, o setor tem mantido o ritmo das operações de importação e exportação, mesmo com a intensificação do trabalho home office. Em outros segmentos, como os setores farmacêutico e de equipamentos hospitalares, por questões óbvias, tem ocorrido uma notável expansão. Mas também as exportações de commodities agrícolas, proteínas animais e minério de ferro têm registrado evolução significativa, em especial pelas compras efetuadas pela China.

Diante disso, seria recomendável que o governo federal estabelecesse uma nova diretriz para a política de comércio exterior, ampliando a participação do setor no PIB, hoje ainda muito reduzida, se compararmos o Brasil, por exemplo, com nações como o México, que tem uma economia muito mais internacionalizada. Para tanto, o País teria de aproveitar o fato de o dólar hoje estar mais valorizado em relação ao real, o que, certamente, beneficia e estimula a exportação, permitindo que sejam oferecidos ao mercado externo produtos com maior poder de competição. 

Com respaldo do governo federal e o restabelecimento de uma política de divulgação dos produtos nacionais no exterior por meio de participação em feiras e congressos, o empresariado pode voltar a investir com maior ímpeto na produção, buscando a ampliação cada vez mais bem estruturada de nossas vendas externas, como fator de equilíbrio e desenvolvimento para a economia nacional.

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