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Sábado

20 de Julho de 2019

Milton Lourenço: Mercosul-UE: o que esperar

Na edição da coluna, o empresário e agente de carga logística fala sobre os benefícios e investimentos europeus no Brasil

Dados divulgados pela Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) mostram que o setor cresceu em maio 15,1% em relação ao ano anterior e 4,7% na comparação com abril, totalizando R$ 7,2 bilhões de receita líquida total, crescimento influenciado principalmente pelo mercado doméstico, que evoluiu 12% no mesmo período. E que de janeiro a maio, o setor cresceu 7,5%.

Aparentemente, esse crescimento seria motivo de otimismo, mas não se pode esquecer que, em maio de 2018, ocorreu um movimento grevista por parte dos caminhoneiros que afetou a economia. O dado divulgado pela Abimaq que, de fato, importa é que, de 2012 para 2015, o mercado caiu 50%. E que aquele crescimento de 7,5% deu-se a partir de um mercado que havia sido reduzido pela metade.

Ainda segundo a Abimaq, o balanço comercial do setor teve um saldo negativo de US$ 812,3 milhões em maio, o que representou um recuo de 38% em comparação com o mesmo mês de 2018, exatamente aquele período afetado pela greve dos caminhoneiros. A situação, porém, ainda não é desesperadora. Segundo a Abimaq, a expectativa de crescimento para este ano é de 5%, até porque as máquinas da indústria brasileira carregam hoje uma idade média de 10 a 15 anos e o setor precisa passar por urgente renovação.

Com a assinatura do acordo de livre-comércio do Mercosul com a União Europeia (UE), não se sabe ainda quais serão as consequências para a indústria nacional a partir da liberação do mercado brasileiro para os manufaturados produzidos na Europa. Os profetas do caos preveem que, enquanto os produtos do agronegócio e a carne bovina do Brasil vão liquidar os pequenos criadores da Europa que vinham sendo financiados por seus governos, os fabricantes europeus de manufaturados deverão liquidar as pequenas indústrias brasileiras e comprar as maiores que não quiserem falir. 

Obviamente, há muito de exagero nessa previsão. Até porque o tratado Mercosul-UE colocará à disposição dos fabricantes de máquinas e equipamentos do Brasil um mercado formado por 509 milhões de habitantes de alto poder aquisitivo, que geram 23,8% da riqueza do mundo, índice maior que o produto interno bruto (PIB) norte-americano, que representa 22,2% da riqueza mundial. 

Mais: o acordo Mercosul-UE irá reduzir, por exemplo, de 17% para zero as tarifas de importação de produtos brasileiros como calçados, aumentando a competitividade de bens industriais em setores como têxtil, químicos, autopeças, madeireiro e aeronáutico. Segundo estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), dos 1.101 produtos que o Brasil tem condições de exportar para a UE, 68% passam a ser isentos de tarifas de importação ou quotas. Em 2018, o Brasil exportou US$ 42,1 bilhões em produtos para a UE. Juntos, os 28 países do bloco representam o segundo maior mercado para bens brasileiros no mundo, perdendo apenas para a China.

Em contrapartida, haverá um significativo aumento dos investimentos europeus no Brasil, com a entrada de empresas que virão a fim de produzir e exportar para a Europa, porque encontrarão matéria-prima e salários mais baixos, o que significa que seus produtos ficarão mais baratos. Ao mesmo tempo, as empresas brasileiras poderão aumentar suas exportações, por terem mais acesso a tecnologias importadas, passando a oferecer produtos com maior valor agregado.

Por fim, é de se lembrar que o México, depois que assinou tratados de livre-comércio com os Estados Unidos e Canadá, em janeiro de 1994, o chamado Nafta, substituído em novembro de 2018 pelo Nafta 2.0, e com a UE em 2000, apresenta hoje uma economia bem mais forte que a brasileira, exportando quase duas vezes mais. É um bom exemplo a seguir.