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Segunda-feira

3 de Agosto de 2020

Milton Lourenço: Candidatura à OCDE em risco

Se o Brasil não apresentar explicações convincentes, poderá não atender aos padrões éticos, políticos e econômicos estabelecidos pela OCDE para seus membros

Se não se pode questionar a indicação de Tarcísio Gomes de Freitas para o Ministério da Infraestrutura, um técnico que, pela primeira vez na história do setor, optou por dar continuidade aos trabalhos que já vinham sendo desenvolvidos no governo anterior, a partir da manutenção dos profissionais que estavam atuando nas políticas públicas ligadas à logística e à infraestrutura, a escolha do diplomata Ernesto Araújo para o Ministério das Relações Exteriores tem se mostrado um desastre completo, especialmente na área de comércio exterior.

Basta ver as declarações nada diplomáticas que, ao lado de outros integrantes do ministério Bolsonaro, deu a respeito da China, em meio à pandemia de coronavírus (covid-19), provocando reações que podem se refletir no comércio exterior, já que o país asiático é hoje o maior parceiro comercial do País, sendo grande importador de soja, petróleo, minério de ferro e outros produtos. De acordo com dados do Ministério da Economia, em 2019, 79% das exportações de soja foram para a China, que ficou também com 19% das vendas externas de frango e, praticamente, com metade da carne suína brasileira.

Além disso, o país asiático é responsável por 64% das nossas exportações de óleos brutos de petróleo, sendo que o segundo maior comprador, Estados Unidos, aparece com apenas 13%. Sem contar que a China produz mais de 90% dos equipamentos de saúde em escala global, dado extremamente importante num momento tão delicado como esse que atravessamos. 

A situação chegou a tal ponto que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ao lado dos ex-chanceleres Celso Amorim, Aloysio Nunes Ferreira, Francisco Rezek e José Serra, do ex-embaixador em Washington, Rubens Ricupero, e do ex-secretário especial de Assuntos Estratégicos no governo Michel Temer, Hussein Kalout, assinaram artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, em 8/5/2020, condenando a política externa do governo Jair Bolsonaro.

Ao que parece, no afã de demonstrar publicamente um alinhamento automático às diretrizes do governo dos Estados Unidos, a atual política externa brasileira pode trazer imensos prejuízos ao País, ao investir contra a tradicional postura comedida do Itamaraty, que sempre procurou abrir canais de entendimento com todos os governos, independentemente da postura político-ideológica de cada um. 

Sem um ministro que tenha a mínima noção das mais altas e importantes funções que deveria exercer à frente do principal cargo do Ministério das Relações Exteriores, que foi ocupado por brasileiros de altíssimo nível, diplomatas respeitados mundo afora, o Brasil só pode perder o já parco espaço que vinha ocupando no ranking dos maiores exportadores/importadores, responsável por apenas 1,2% do comércio global, o segundo país mais fechado do mundo, atrás apenas do Sudão, de acordo com dado inserido em estudo de 2018 da Secretaria de Assuntos Estratégicos.

Um desses prejuízos pode ser o veto à candidatura do Brasil à Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), com sede em Paris, apresentada em 2017, diante das denúncias de que o governo estaria afrouxando o combate à corrupção, cerceando o trabalho de promotores, investigadores e policiais, que puderam atuar com bastante independência durante a operação Lava-Jato, deflagrada em 2014. Se na videoconferência marcada para julho não apresentar explicações convincentes, o Brasil poderá não atender aos padrões éticos, políticos e econômicos estabelecidos pela OCDE para os seus membros. É o que, provavelmente, irá acontecer, se o governo continuar nessa toada, sem estabelecer uma nova diretriz para o comércio exterior.

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