Mar vira refúgio durante a pandemia

Atividades náuticas são alternativa aos que buscam relaxar longe de aglomerações e evitar o contágio pela covid-19 na região

O mar tem servido de refúgio para muitos que buscam relaxar longe de aglomerações e evitar os riscos de contágio por covid-19. Este é o motivo para o crescimento na procura por atividades náuticas durante a pandemia. Mesmo com a falta de números para exemplificar o momento, a Capitania dos Portos, a Prefeitura de Guarujá, marinas e empresas de locação de embarcações afirmam: o aumento é relevante. 

Quem observa de perto esse cenário é o empresário e capitão amador Herman Junior, fundador do portal INavigate, que atua com informações meteorológicas, dicas e orientações sobre navegação, além de agregar 40 grupos de WhatsApp com a marca Mayday, para troca de experiências, pedidos de socorro e alertas. 

“Até pouco antes da pandemia, o cara que tem o veleiro ou uma lancha num final de semana ia para o mar, no outro para o interior, para o shopping ou para uma festa dos amigos. Hoje não, estão saindo muito mais para o mar, e as pessoas que não têm embarcação procuram (alugar) para poder sair”, afirmou. 

Para os próximos anos, ele prevê um crescimento de até 500% na locação de lanchas e veleiros e de 70% para a venda. 

O Iate Clube de Santos (ICS) informou, em nota, ter se surpreendido com o crescimento na venda de embarcações novas e seminovas – aponta um aumento de 20%, com base nos dados das empresas que vendem e alugam lanchas no local. 

“Esse fenômeno se acentuou quando as pessoas perceberam que a pandemia não teria solução rapidamente. Acredito que o setor náutico tem hoje um comportamento similar ao mercado imobiliário, que está aquecido na compra e aluguel de casas de praias e no interior. As pessoas estão procurando passar a pandemia da melhor maneira possível”, diz o Iate Clube. 

Com o maior movimento de embarcações, a entidade revela que o aumento na venda de combustível é a primeira consequência, assim como os serviços correlatados. “São boas notícias para uma rede de fornecedores e prestadores de serviços instalados em torno do clube”.

Cultura náutica

Herman explica que o INavigate e grupos Mayday têm como objetivo, também, difundir a atividade náutica que, segundo ele, não é explorada em Santos, apesar das muitas opções de passeio e áreas de lazer na região. “Santos não tem cultura náutica e não entendemos por quê”. 

O capitão armador aponta que o impacto da pandemia nas atividades náuticas surpreende. Herman afirma que não tem como mensurar o crescimento, mas revela que os pedidos para a emissão da carteira de arrais (habilitação da Marinha, que dá o direito de pilotar embarcações) criaram uma fila de espera. “Em novembro, liguei para um amigo despachante (náutico) e ele disse que só tem vaga para fazer arrais em março”. 

Restrições são empecilho, dizem marinas

Dois são os fatores que motivam o crescimento da atividade náutica, segundo empresas de locação de lanchas procuradas pela Reportagem: a pandemia e a temporada de verão. Ao mesmo tempo em que a demanda está alta, as restrições a 40% da capacidade das embarcações se tornam um empecilho. 

Pablo Rey Charles, dono da Sea Boat Aluguel de Lanchas, revela que uma embarcação para 10 pessoas sai com quatro clientes e o marinheiro, por exemplo, o que reduz o rateio entre os interessados e, naturalmente, eleva os custos. Apesar disso, ele conta que não tem o que reclamar. “Aumentou bastante a locação, na área náutica em geral desde o começo da pandemia”. 

Thalia Raquel Maltempi é dona de uma embarcação e trabalha em uma marina. Assim como Pablo, ela revela que o interess e é bom, mas poderia ser ainda melhor, se não fossem as restrições de capacidade. 

Ela revela que a cidade de Guarujá tem realizado diversas fiscalizações, o que tem motivado os donos de lanchas as levarem para outras marinas, em cidades vizinhas, como para Bertioga.

Guarujá tem aumento de movimentação

A Prefeitura de Guarujá também confirmou o aumento na atividade náutica, assim como das vistorias. O município informa que o decreto 13.435 regulamenta a locação e prática do lazer náutico na Cidade. 

“Desde 2018, a Prefeitura tem um convênio com a Marinha para fiscalização náutica. No acordo, as competências passaram a ser compartilhadas, cabendo aos agentes municipais a fiscalização, ainda na faixa arenosa, da documentação das embarcações e dos condutores”. 

Em dezembro do ano passado foram realizadas 1.134 vistorias às embarcações, destas 38 tiveram que retornar. Já neste ano, até o último dia 10, foram 864 vistorias e 40 retornos. Para esta temporada, o município conta com uma embarcação que faz o patrulhamento em uma área de 200 metros antes da arrebentação.

“No mar, você sente maior liberdade”

O advogado tributário, Thiago Aló, conseguiu recentemente a carteira de arrais - pouco antes de a demanda ter aumentado -, e alugou uma lancha no último sábado de 2020. “Acho que a pandemia e esse período trancado em casa ajudou (nesse interesse). No mar, você sente maior liberdade”.

Ele conta que alguns membros da família são ligados ao mundo náutico, porém, antes, não havia despertado o interesse, que dessa vez, segundo ele, surgiu naturalmente. “Conheci o (capitão armador) Herman e outras pessoas que vão muito para o mar e tive essa vontade”.

Agora que teve a primeira experiência sob o comando de uma embarcação, o advogado garantiu que a intenção é repetir a dose. Aló também acredita que o setor tem muito a evoluir. “Acho que tende a crescer (a atividade náutica), especialmente nessa questão de poder alugar em vez de comprar, de ter a experiência sem ser dono”, diz.

Ainda de acordo com ele, algo que pode melhorar é a divulgação desses serviços. “Não conheço intermediadores nesse negócio, como corretores de imóveis. (Mas) acredito que seja uma tendência, pois Santos é uma cidade em que a população tem um poder aquisitivo bom”. 

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