Dias antes de ser assassinada pelo namorado, Jane de Araújo Lima, de 46 anos, enviou um vídeo à família no qual mostrava, animada, a casa nova em que iria morar em Praia Grande, no litoral de São Paulo. O que ninguém imaginava é que, no registro, apareceria também a mala onde o corpo dela seria colocado após o crime. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Na gravação, Jane fala com entusiasmo sobre o novo lar. “Olha aí, amiga, vou começar pelo quarto, mas tá tudo bagunçado ainda, não deu tempo de eu arrumar nada. Tá tudo no zero ainda, minha irmã. Tem o corredor, banheiro - ainda vamos colocar o chuveiro. A casa é novinha, mulher. Tá ótimo para mim”. Em um dos momentos, logo no início do vídeo, é possível ver a mala idêntica à que foi usada pelo companheiro da vítima, Atílio Ferreira da Silva, de 49 anos, para ocultar o corpo após matá-la no dia 27 de agosto. O objeto foi reconhecido pelos investigadores e apontado como uma das provas que reforçaram a versão do crime ocorrido dentro do imóvel. -VIDEO FACEBOOK (1.478881) Relembre o caso Jane de Araújo Lima, de 46 anos, permaneceu desaparecida por mais de uma semana até ser encontrada morta dentro de uma mala em um terreno baldio no bairro Ribeirópolis, em Praia Grande, no litoral de São Paulo. O companheiro dela, Atílio Ferreira da Silva, de 49 anos, confessou o crime após se apresentar espontaneamente na delegacia e ser confrontado com as provas já reunidas pela Polícia Civil. O delegado titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Praia Grande, Luiz Ricardo de Lara Dias Júnior, detalhou o caso em coletiva de imprensa nesta quarta-feira (10), no Palácio da Polícia, no Centro de Santos. Segundo ele, Jane foi morta após uma discussão ocorrida no dia 27 de agosto, uma quarta-feira, dentro da casa onde morava com o companheiro. O corpo foi colocado na mala e desovado no terreno da Avenida Doutor Esmeraldo Soares Tarquínio de Campos Filho apenas na noite de terça-feira (2). Ele foi encontrado por crianças dois dias depois, na noite de quinta-feira (4). “Naquele dia houve uma briga acalorada, com relatos de vizinhos inclusive sobre agressões físicas. Desde então, a vítima não foi mais vista no bairro”, afirmou o delegado. Crime dentro de casa De acordo com o delegado, a perícia encontrou manchas de sangue em um dos cômodos da residência do casal, mesmo após uma tentativa de limpeza. “Foi possível identificar sangue humano em um cômodo que estava visivelmente mais limpo. Isso reforçou que ela foi agredida e morta dentro de casa”, explicou. Na confissão, o homem disse que a discussão começou após o uso de bebida alcoólica e cocaína. Ele contou à polícia que Jane teria se apoderado de uma faca, mas que conseguiu desarmá-la e desferiu os golpes. “Ele permaneceu com o corpo na sala de quarta para quinta-feira. Na noite seguinte, colocou a vítima dentro de uma mala e manteve ainda no imóvel. Só quase uma semana depois levou a mala até o terreno baldio”, relatou o delegado. O delegado também disse que o homem apresentava um corte na região do peito, próximo ao coração, e alegou que teria sido feito por Jane durante a discussão. “Ainda não foi possível confirmar se esse ferimento foi causado pela faca, já que estava cicatrizado pelo tempo decorrido”, explicou. A mala e a ocultação Atílio levou o corpo até o terreno baldio sozinho, caminhando cerca de três quadras. “Não houve a participação de outra pessoa. Ele carregou a mala sozinho, com a intenção de se desfazer do corpo e depois criar uma narrativa para enganar a polícia”, disse Lara Dias. A mala usada para ocultar o corpo já havia aparecido em vídeos gravados pela própria vítima dentro de casa. “Uma das filhas de Jane, que mora no Maranhão, enviou um vídeo em que a mãe mostrava a residência. Nele, é possível ver a mala idêntica àquela encontrada no terreno”, contou o delegado. O suspeito ainda tentou se desfazer da faca do crime, quebrada ao meio devido à violência dos golpes. Ele a escondeu entre dois muros próximos à residência. “Nesta terça-feira (9), localizamos as duas partes da faca, exatamente como ele descreveu”, acrescentou Lara Dias. Dias depois do crime, Atílio vendeu os móveis do casal e chegou a dizer a conhecidos que Jane havia se mudado para o Maranhão ou Piauí. Contradições e confissão Segundo a Polícia Civil, o homem se apresentou ao 3º Distrito Policial (DP) de Praia Grande na tarde de terça-feira (9), sem saber que havia contra ele um mandado de prisão temporária. Inicialmente, negou o crime e apresentou versões contraditórias, mas acabou confessando durante o interrogatório. “Ele colaborou e demonstrou arrependimento. Chorou bastante ao reconstituir a dinâmica do crime no imóvel. A confissão foi filmada para não deixar dúvidas sobre sua espontaneidade”, explicou o delegado. Apesar disso, Lara Dias foi categórico: “Não podemos nos esquecer de que se trata de um homicídio doloso, um feminicídio, com vontade livre e consciente”. Segundo o delegado, o suspeito alegou que a mala havia sido encontrada na rua pelo casal, que gostou do objeto e que já possuía uma sequência numérica colada antes mesmo do crime. Histórico de violência O delegado informou que o casal vivia um relacionamento conturbado, com histórico de violência doméstica, inclusive já registrado por familiares no Maranhão. “Desde quando ainda residiam no Nordeste, havia relatos de agressividade entre eles. Aqui em São Paulo, ele chegou a responder a medidas protetivas em relação a uma ex-companheira”, revelou. Segundo a autoridade, os dois se conheceram no Nordeste e mantinham um relacionamento há cerca de sete anos. Eles já moraram em Guarujá, Santos e, por último, em Praia Grande. Atílio trabalhava como serralheiro, enquanto Jane fazia serviços como diarista. Jane deixa três filhas, todas residentes no Maranhão A autoridade policial também disse em coletiva que o homem já tinha boletins de ocorrência registrados contra ele por violência doméstica, mas que ele ainda não tinha nenhuma passagem criminal pela polícia. Investigação segue A Polícia Civil aguarda laudos necroscópicos e tanatológicos para confirmar a dinâmica dos fatos e o tempo exato da morte. “O exame é fundamental porque o corpo não apresentava, à primeira vista, características compatíveis com um homicídio cometido uma semana antes. Só a perícia vai esclarecer se ela morreu imediatamente ou se ainda ficou algum tempo viva após as agressões”, concluiu o delegado. Atílio segue preso temporariamente por 30 dias e aguarda audiência de custódia que deve acontecer ainda nesta quarta-feira (10).