Mãe de jovem morto na Operação Verão alega inocência do filho no Litoral de SP: 'Não vou desistir'

João Lucas morreu em uma ação da PM. A mãe faz investigação própria para descobrir o que aconteceu

Por: Ravena Soares  -  15/05/24  -  08:04
Jovem era dono de uma bicicletaria
Jovem era dono de uma bicicletaria   Foto: Arquivo pessoal

“Eu não vou desistir”. Esse é o relato de Regina Oliveira, 52 anos, mãe de João Lucas, que morreu aos 21 anos, em março, durante a Operação Verão. Na versão da polícia, o jovem, que estava armado, teria entrado em confronto e sido morto. Entretanto, a família rebate as informações e, atualmente, tenta provar a inocência de Lucas.


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Conforme o boletim de ocorrência, obtido pela reportagem na época dos fatos, após atirarem contra um trio que estava armado, eles fugiram. João, entretanto, foi encontrado em uma casa, atrás de uma geladeira.


Ainda de acordo com o documento policial, a equipe pediu para que o suspeito saísse com as mãos na cabeça, mas ele se levantou e, novamente, tentou atirar nos policiais. Com isso, os PMs dispararam quatro vezes contra o homem, que caiu no chão.


Regina, entretanto, afirma que o filho estava sozinho e tinha saído da casa do pai (seu ex-marido) para buscar um remédio para o mesmo, que estava passando mal. No caminho, andando pela rua, ele foi alvejado. “Ele saiu e não voltou mais”, lamenta.


A mulher ainda afirma que o filho não era envolvido com o crime, e que o mesmo era empresário, administrava uma bicicletaria no bairro e também prestava serviços para consertos de bicicletas e motos. Ele estava construindo a vida e, em 2023, abriu um CNPJ.


João Lucas também era torcedor do Santos e tinha a paixão pelo Peixe em comum com o pai. Por isso, possuia uma tatuagem do time no braço. Na época em que ele fez a homenagem, a mulher disse ter alertado o filho.“ Eu falei ‘a gente já é pretinho. E ainda tem tatuagem, vão achar que somos bandidos’”, lembra.


João era santista apaixonado e tinha feito uma tatuagem em homenagem ao time
João era santista apaixonado e tinha feito uma tatuagem em homenagem ao time   Foto: Arquivo pessoal

Para A Tribuna, Regina conta que sempre orientou o filho sobre como ele deveria se comportar em meio a comunidade, para que não fosse confundido com bandido. “Eu nunca pensei, na minha vida, que ele iria morrer. Ele era muito bom, uma pessoa maravilhosa”, descreve.


Luto

“Mãe, vou ver o pai”. Essa foi a última coisa que Regina diz ter escutado do filho enquanto ele estava vivo. Ele, que morava junto com ela no Jóquei Clube, em São Vicente, iria passar a noite na casa do pai, que estava doente. Como explicado mais acima, ele foi alvejado quando saiu para comprar uma medicação.


Com CNPJ ativo ele consertava bicicletas e motos
Com CNPJ ativo ele consertava bicicletas e motos   Foto: Arquivo pessoal

Segundo Regina, o primeiro tiro que João levou foi no abdômen. “Ele saiu gritando socorro. Entrou em uma casa, onde até hoje tem marcas de sangue na parede”, conta.


João se escondeu atrás de uma geladeira, e quando foi encontrado pelos policiais, levou mais dois tiros. No boletim de ocorrência, é dito que o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi acionado para socorrer o homem e o levou até o Pronto Socorro Central da cidade. No entanto, ele não resistiu aos ferimentos e morreu no local.


Apesar de João ter morrido no início da madrugada do dia 28, foi na hora do almoço que a família ficou sabendo, quando perceberam que ele não havia aberto sua bicicletaria. Seu corpo foi reconhecido no Instituto Médico Legal (IML) por um amigo. “Quando chegou lá, a moça informou que tinha um homem com as características dele e uma tatuagem”.


Foi neste momento que Regina descobriu que o filho mais novo havia morrido. “Eu nunca pensei que isso fosse acontecer”.


Em poucas horas, amigos e conhecidos se organizaram para realizar o velório e enterro. Regina alega que foi um momento emocionante e que o cemitério ficou lotado de pessoas que queriam se despedir do filho.


Amigos e familiares se mobilizaram para despedida
Amigos e familiares se mobilizaram para despedida   Foto: Arquivo pessoal

Luta

Ainda em meio ao luto, Regina começou a questionar o ocorrido. Ela diz que, ao ir à delegacia, encontrou dificuldades para ter acesso ao boletim de ocorrência. Mas continuou persistindo.


Atualmente, ela traça sua própria investigação para descobrir o que, de fato, ocorreu com o filho na madrugada do dia 28. Ela crê e alega a sua inocência, e deseja que a justiça seja feita. Ela também espera o resultado de exames do IML e demais ações da justiça. Mas, para além disso, ela deseja honrar a memória do filho e provar que ele não é um criminoso, como descrevem.“É muito doloroso imaginar que criaram uma história dessas”, destaca.


Em conversa com testemunhas, a mulher conta que tem descoberto detalhes da noite. As mesmas testemunhas têm versões divergentes das apresentadas pela polícia. “Falaram que ele levantou as mãos, e falou que trabalhava, que tinha uma bicicletaria, que podiam puxar a ficha dele… Mas, mesmo assim deram mais dois tiros nele”.


Regina garante que irá lutar para provar a inocência de João Lucas. “Deus sabe que o que me move é isso. Eu não vou desistir. Eu não tenho medo de nada. Eu não tenho medo de ninguém, porque a dor que eu sinto se tornou uma fortaleza. E eu vou provar que meu filho nunca foi bandido”, afirma.


SSP

Em nota, a Secretaria Estadual da Segurança Pública (SSP) informou que o caso é investigado pelas polícias Civil e Militar, com acompanhamento das respectivas corregedorias, Ministério Público e Poder Judiciário.


A pasta ainda lembrou que, na ocasião dos fatos, policiais militares foram recebidos a tiros ao chegarem no Dique do Piçarro para verificar uma denúncia de indivíduos armados. Houve intervenção e os criminosos fugiram. Posteriormente, um deles foi localizado em um imóvel e houve novo confronto. O suspeito foi atingido e não resistiu. Com ele, foi apreendida uma arma de fogo. Exames periciais foram solicitados e o caso, registrado como tentativa de homicídio, resistência e morte decorrente de intervenção militar na Delegacia de São Vicente.


A SSP ainda ressaltou que a Corregedoria da Instituição está à disposição para formalizar e apurar toda e qualquer denúncia relativa à atuação de seus agentes.


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