Cláudia Tavares, mãe de Beatriz Tavares da Silva Faria, afirma que pediu para reabrir o caso (TV Tribuna e Reprodução/Redes Sociais) Um ano e dois meses após o naufrágio que resultou na morte de duas mulheres na região da Garganta do Diabo, em São Vicente, no litoral de São Paulo, a mãe de uma das vítimas afirma ter descoberto sozinha que o caso havia sido arquivado e recorreu ao Ministério Público para pedir a reabertura da investigação. Segundo a defesa, houve uma movimentação equivocada no sistema do cartório. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! “A dor é muito grande. Só quem tem filhos, ou pessoas que já perderam os filhos, sabem o que eu estou sentindo. O que eu passo nas noites que não consigo dormir, e o quanto eu choro”, disse Cláudia Aparecida Tavares da Silva Faria, mãe de Beatriz Tavares da Silva Faria, para A Tribuna. O acidente ocorreu em 29 de setembro de 2024. Após participarem de uma festa em uma lancha, as vítimas retornavam em um barco menor que acabou atingido por uma onda. Dos sete ocupantes, quatro sobreviveram dividindo três coletes salva-vidas, enquanto Beatriz, que na época tinha 27 anos, e Aline Tamara Moreira de Amorim, 37, morreram afogadas. Cláudia afirma que descobriu por conta própria que o inquérito havia sido enviado ao Fórum e que, posteriormente, constava como arquivado desde o dia 3 de setembro. “Não me comunicaram, eu só fiquei sabendo porque fui atrás. Se eu não tivesse ido atrás, não ia ficar sabendo nunca que tinham encerrado o assunto”, desabafa. A mãe conta que passou meses indo à delegacia para saber o andamento da investigação, sempre recebendo a mesma resposta: que o inquérito dependia de desdobramentos da Marinha e da Polícia Civil. Somente após a ida ao Ministério Público, em 19 de novembro, Cláudia diz ter conseguido que o procedimento fosse retomado. “Eu não tenho condições financeiras para pagar um bom advogado, mas quero esclarecimentos [...] Eu estou sem resposta, sem explicação de tudo isso. E todo mundo fica calado, todo mundo fica quieto, ninguém fala nada. Então, eu vou colocar a minha cara a tapa”, afirma. Processo segue em andamento A reportagem apurou junto ao Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) que o inquérito policial segue em andamento para investigar homicídio culposo. Segundo o TJ-SP, uma decisão de 4 de julho deste ano declarou extinta a punibilidade do piloto apenas no que diz respeito às lesões corporais sofridas pelos sobreviventes. Já a parte referente às mortes permanece sob investigação. O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) confirmou que houve decadência das lesões corporais culposas em decorrência das vítimas que sobreviveram não terem manifestado, dentro do prazo legal, interesse em prosseguir com a ação penal. No entanto, o órgão reforçou que os crimes de homicídio culposo seguem em análise e que está sendo avaliada a possibilidade de um acordo de não persecução penal – instrumento jurídico que permite ao investigado por crimes sem violência ou grave ameaça firmar um acordo com o MP para evitar um processo criminal. A instituição afirma que aguarda documentos pendentes para concluir a avaliação. O TJ-SP informou que o inquérito policial está sob sigilo e segue em tramitação para esclarecer as circunstâncias do homicídio culposo. O Ministério Público aguarda documentos para decidir sobre os próximos passos. Questionamentos sobre lotação e coletes “Ele teve culpa, sim, porque ele colocou sete pessoas num barco que comportava cinco”, diz a mãe. A informação da lotação foi informada pelo piloto, em depoimento à Polícia Civil, em outubro de 2024. “Se ele sabia que a embarcação dele não tinha condições de atravessar ali, por que foi?”, questiona. Cláudia também destaca o número de coletes salva-vidas. “Independente de serem três ou cinco. Tinham sete pessoas no barco”, destaca. Para ela, o piloto assumiu risco ao navegar sob essas condições. Defesa nega erro do piloto A advogada que representa o piloto, Isamara Freitas, afirma que não houve arquivamento da parte referente às mortes. Segundo ela, o que ocorreu foi “uma movimentação equivocada do cartório no sistema processual”, já corrigida. “Na realidade, o que houve foi o arquivamento da investigação relativa às lesões corporais, pois as pessoas que se machucaram optaram por não representar, ou seja, não quiseram dar continuidade ao procedimento”, diz a advogada. Sobre as lesões corporais, a defesa afirma que os sobreviventes declararam que o barqueiro demonstrou “enorme empenho” e fez “tudo o que estava ao seu alcance para salvar todos”. Ainda segundo Isamara, as vítimas relataram acreditar que o ocorrido foi “uma fatalidade” e que não houve falta de habilidade na condução da embarcação. Isamara afirma que a defesa aguarda a finalização das apurações, sustentando que o piloto não teve culpa. Vazio A mãe conta que precisou fazer tratamento psicológico após a tragédia, pois estava entrando em depressão. “Ela era a minha única filha. Eu não tenho mais ninguém. Eu sinto muita falta”, desabafa. “O quarto dela eu deixei do jeito que está. Eu não mexi. Agora que eu estou começando a mexer nas coisas dela. E mesmo assim, é aquela dor no peito, da saudade. Eu só choro e meu marido também. Não conseguimos dormir, eu tomo remédio para poder conseguir dormir”, relata.