Mario, Marcelly e Rafaela devem ser julgados em breve, segundo acusação. O trio é acusado de envolvimento na morte de Igor Peretto (Reprodução) Completa neste domingo (31) um ano do caso que teve grande repercussão entre os moradores da Baixada Santista: a morte do comerciante Igor Peretto, de 27 anos, em Praia Grande. Os acusados pelo crime, Mario Vitorino da Silva Neto, Marcelly Marlene Delfino Peretto e Rafaela Costa da Silva, permanecem presos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A Tribuna conversou com os advogados de defesa, da acusação e com o irmão da vítima para entender o que eles esperam sobre a resolução do caso, que ainda não teve julgamento. A reportagem também preparou uma linha do tempo que conta os principais desdobramento do caso (leia mais abaixo). Crime Igor foi morto a facadas na madrugada do dia 31 de agosto de 2024, dentro do apartamento da irmã, Marcelly Peretto, na Avenida Paris, no Canto do Forte. Os três réus foram denunciados pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP), acusados de premeditar o crime, motivado por questões passionais e financeiras. Eles estão presos preventivamente há cerca de 11 meses. Mario teria sido o autor dos golpes que mataram o comerciante. Como está o caso Na última quarta-feira (27), o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) informou a A Tribuna que foram apresentadas as alegações finais pelas partes, e que o processo será encaminhado para que o juiz profira a sentença, definindo se os réus serão ou não submetidos a julgamento. O órgão ressaltou que ainda cabe recurso dessa sentença e a decisão pode ser modificada. Defesas O advogado Leandro Weissman, que representa Marcelly, diz que ficou comprovado que a prisão de sua cliente é ilegal e imotivada. “Marcelly não contribuiu de qualquer forma para a morte do seu irmão Igor, seja em planejamento ou efetiva ação”, destaca o defensor. Weissman ressalta que a defesa lida com provas do processo e critica as especulações de redes sociais, familiares e pessoas sem conhecimento técnico, que, segundo ele, envolvidos pela emoção e sem conhecimento de causa, acabam contribuindo para uma pré-condenação. “A defesa de Marcelly espera serenamente a impronúncia, uma vez que a denúncia restou absolutamente isolada diante do conjunto probatório do processo. A inocência grita!”. O pai de Marcelly e Igor Peretto, Mauricio Peretto, também se manifestou por nota enviada pelo advogado Leandro Weissmann, que atua na defesa de Marcelly no caso. Mauricio Peretto afirma que acredita na inocência de Marcelly, o que, segundo ele, é comprovado pelas provas anexadas ao processo. "Quero afirmar que, embora profundamente abalado pela tragédia, continuo a acreditar que Marcelly jamais teve qualquer participação no ocorrido. Nossa família confia no processo da justiça e aguarda com serenidade que se faça justiça — sua imediata absolvição!", afirma. O advogado Yuri Cruz, que atualmente defende Rafaela, diz que o conjunto probatório colhido ao longo da instrução processual é categórico ao demonstrar que “Rafaela não participou, não incentivou, não planejou e tampouco desejou o trágico desfecho que vitimou Igor Peretto”. “Os depoimentos judiciais do delegado de polícia e dos investigadores comprovam a sua inocência com relação ao crime doloso contra a vida”, afirma Cruz. Ele destaca que condutas eventualmente passíveis de críticas no plano moral não se confundem com responsabilidade penal, a qual somente pode ser reconhecida diante de provas concretas colhidas sob o manto da legalidade — o que inexiste no presente caso em relação a Rafaela. O defensor afirmou ainda que já apresentou suas alegações finais e aguarda, com serenidade, a sentença que encerrará a primeira etapa do procedimento do Tribunal do Júri. “A defesa confia que o Poder Judiciário será firme em resistir às pressões externas e aos julgamentos apressados fomentados nas redes sociais, desprovidos de qualquer base probatória mínima com relação a Rafaela Costa, decidindo pela sua impronúncia”, finaliza. O advogado Mario Badures, defensor de Mario Vitorino, também se manifestou em nota, cuja íntegra é a seguinte: "1) A acusação retratada na denúncia revela uma ficção fática que contraria a lógica e se apoia em lendas urbanas que não condizem com a realidade das provas produzidas ao longo da fase policial e principalmente em Juízo, podendo-se citar a inexistência de qualquer 'trisal', nunca houve 'motivação financeira' ou ainda qualquer indicativo prévio quanto a 'premeditação', justamente a base do que é sustentado pelo Ministério Público. A defesa tem enfrentado todos esses vetores e confia na imparcialidade do Judiciário, o qual irá afastar tais ilusórias narrativas; 2) Atualmente é aguardada a abertura de prazo para apresentação das alegações finais, onde serão indicadas as falhas da narrativa acusatória e consequentemente a absolutamente inadequada acusação existente na forma como lançada: aguardamos com serenidade a oportunamente decisão judicial para analisar eventuais atuações em sede recursal e, se o caso, o manejo e impetração de eventuais habeas corpus; 3) A Defesa de Mario Vitorino sempre se posicionou de maneira técnica, serena e respeitosa, razão pela qual ao final da fase de admissibilidade há confiança de que o farto conteúdo probatório produzido, especialmente em audiência, não será descartado e trará força suficiente para afastar, no mínimo, as qualificadoras alegadas pelo Ministério Público. Estamos diante de um farto terreno de nulidades, exploração indevida de provas manifestamente ilícitas e sem esquecer do vazamento de dados que compromete a lisura de parte da investigação, enquanto que, por outro lado, a defesa trouxe luz ao desmascarar a prova digital, assim como recuperou os telefones apreendidos e teve acesso a uma série de elementos de provas que, até o presente momento, foram sumariamente ignorados no processo. Aguarda-se portanto a oportunidade de externar a correta interpretação dos fatos e lutar pela descoberta da verdade, correta aplicação da Lei e a concretização da Justiça." Acusação O advogado Felipe Pires de Campos, representante da família de Igor Peretto, critica a demora no andamento do caso, o que, segundo ele, “chateia demais os familiares, que querem ter um desfecho final o quanto antes, para ter o mínimo de conforto de que a justiça foi feita”. “Infelizmente a demora tem sido provocada pelas defesas e não pela acusação, pois as mesmas vêm fazendo inúmeros pedidos nitidamente procrastinatórios e sem qualquer fundamento”, destaca Campos. Segundo ele, além do desconforto da família da vítima, os próprios réus também são prejudicados, já que permanecem presos sem julgamento final pela demora das defesas. A acusação afirma que, atualmente, só falta a defesa do réu Mario Vitorino apresentar as alegações finais, para que assim o juiz possa proferir a decisão final. “Essa demora tem sido insistente, a cada momento cria-se uma nova desculpa para não apresentar a defesa final e requerer novo prazo. Esperamos que o juiz tome alguma decisão/posição definitiva para que o processo seja finalizado o mais rápido possível.” Por fim, ele ressalta que a acusação continua acreditando que os três réus irão a júri popular e espera que a data do julgamento seja definida o quanto antes. Irmão da vítima O vereador de São Vicente e irmão da vítima, Tiago Peretto (União Brasil), que fez diversas manifestações nas suas redes sociais durante os desdobramentos do caso, demonstrando sua insatisfação, conta que a família está triste com a situação, porque, de acordo com ele, parece que nada mudou mesmo após um ano da morte de Igor. "Lutamos todos os dias, clamando por Justiça. Postando em redes sociais para que o crime não caia em esquecimento. A gente não conseguiu nem viver ainda o luto. Nós estamos vivendo a justiça para depois da possível condenação viver o luto. Acreditamos na justiça e que os três sejam condenados, cada um dentro da sua culpabilidade, mas no rigor da lei, com penas altas, porque foi um crime premeditado, com requintes de crueldades, tendo em vista toda a traição, toda a trama, todos os requisitos que o MP aponta para que eles sejam condenados”, destaca o vereador. De acordo com o político, a demora para que o trio seja julgado prejudica muito o processo. Peretto afirma que foram feitas manobras jurídicas invasivas da defesa apenas para prolongar o tempo e impedir o processo de ‘andar’ tentando de alguma forma que o crime caia em algum tipo de esquecimento. O vereador afirma que as defesas sempre entram com algum tipo de prerrogativa para prolongar as decisões do juiz. "A gente acredita que eles (defensores) esgotaram todas as fichas possíveis e que no decorrer da semana, agora, com esse um ano da perda do meu irmão, acreditamos que vai ter uma grande surpresa”. O vereador espera que o trio vá à júri popular o mais rápido possível. Tiago Peretto também torce para que os três sejam condenados e paguem pela pena que a justiça determinar. Segundo ele, é o desejo da família. "A gente fica triste e angustiado, mas vamos continuar lutando” Síndica e boletim de ocorrência Conforme noticiado, A Tribuna teve acesso ao boletim de ocorrência e ao processo do caso. No registro da Polícia Civil, consta que os policiais militares, após serem chamados e chegarem ao prédio, foram atendidos pela síndica. Ela relatou que, durante a madrugada, ouviu barulho e gritaria vindos de um apartamento no quarto andar. Vizinhos chegaram a tocar a campainha e bater à porta, mas não foram atendidos. A síndica contou aos agentes que, pelas câmeras de monitoramento, viu Marcelly e Rafaela chegarem ao edifício por volta das 4h35 e entrarem no apartamento. Quase uma hora depois, Mário e Igor apareceram e pediram ao porteiro para entrar. Conforme relatado no boletim de ocorrência da Polícia Civil, a irmã de Igor só permitiu a entrada caso os dois fossem juntos ao apartamento. Ainda conforme as imagens, por volta das 6h, Mário e Marcelly deixaram o apartamento, desceram pela escadaria e saíram para a rua pelo estacionamento. Os PMs observaram sinais de que Igor e Rafaela ainda poderiam estar no imóvel, cujo corredor de acesso apresentava marcas de sangue. Rafaela, porém, não estava lá. O apartamento foi aberto com ajuda de um chaveiro. No quarto, próximo à janela, os policiais encontraram o corpo de Igor. O boletim de ocorrência aponta indícios de luta corporal, já que o imóvel estava revirado e com marcas de sangue. Uma faca ensanguentada foi achada perto da porta. Denúncias e prisões da irmã e viúva Mario e Rafaela tiveram prisão temporária decretada pela Justiça em 2 de setembro. Foragida havia quatro dias, Rafaela (viúva) se apresentou à polícia no dia 6, em Praia Grande. Na mesma data, Marcelly, irmã da vítima, também foi presa por suposto envolvimento no crime. Segundo apurado por A Tribuna, Rafaela, viúva de Igor, mantinha uma relação próxima com a cunhada Marcelly, fato evidenciado em vídeos publicados no TikTok e outras redes sociais. Imagens do dia do crime Imagens obtidas por A Tribuna mostraram a movimentação dos envolvidos no dia do crime. Por volta das 4h35, Marcelly e Rafaela chegam juntas em um carro Nissan Kicks branco, estacionam na Avenida Paris, entram no prédio e sobem de elevador para o apartamento de Marcelly, conversando e rindo. Às 5h40, Rafaela desce sozinha, sai do prédio e vai embora no mesmo veículo. Dois minutos depois, Igor e Mário chegam em um Honda HR-V preto. Após se identificarem no interfone, sobem juntos no elevador às 5h44. Câmeras mostram os dois conversando enquanto Igor exibe mensagens no celular. Depois, seguem para o corredor que dá acesso ao apartamento de Marcelly. Por volta das 6h, Mário e Marcelly aparecem na garagem do subsolo e deixam o local no carro de Mário, que estava estacionado na rua. Às 6h10, chegam ao apartamento dele, mas logo saem novamente no mesmo veículo. Carro abandonado em motel O carro de Mário foi encontrado abadonado no dia 5 de setembro, num estacionamento de um motel em Pindamonhangaba, no interior de São Paulo. O veículo tinha marcas de sangue, foi periciado e levado pela polícia até a Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Praia Grande. De acordo com informações da Polícia Civil, o casal ficou cerca de 3 horas hospedado em um motel no Bairro Jardim Morumbi. Prisão de Mário No dia 15 de setembro, Mário foi preso em Torrinha, no interior paulista, a 250 km da Baixada Santista. Ele estava foragido desde a decretação de sua prisão temporária, no início do mês. Segundo a investigação, Mário mantinha um relacionamento extraconjugal com Rafaela. Ainda em 15 de setembro, o suspeito foi levado ao plantão policial de Rio Claro e, no dia seguinte, passou por audiência de custódia. A prisão aconteceu após uma investigação particular conduzida pela família Peretto, que ajudou a localizar Mário em numa casa onde morava o tio de Rafaela, no bairro Jardim Novo Mundo, em Torrinha. No dia 25 de setembro, o trio participou da reconstituição do caso acompanhado dos seus advogados. Andamento do caso Conforme noticiado por A Tribuna, o laudo do homicídio apontou que Igor sofreu 40 ferimentos provocados por faca. O trio foi denunciado pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) em 29 de setembro. O órgão pediu prisão preventiva, acolhida pela Justiça no dia 31, além de indenização mínima de R\$ 300 mil aos herdeiros da vítima, por danos morais. O MP também requereu que os três sejam levados a júri popular. Durante a investigação, prints de conversas e relatos apontaram que Rafaela e Mário planejavam dormir juntos na madrugada do crime. No mesmo local, momentos antes do assassinato, Rafaela e Marcelly teriam tido um envolvimento amoroso, inclusive com troca de beijos, segundo informações apuradas por A Tribuna. Audiência A primeira audiência de instrução dos acusados teve início em 20 de março, no Fórum de Praia Grande, mas foi adiada para 7 de maio. Quando retomada, precisou ser novamente remarcada devido à quantidade de testemunhas, ficando definida para 16 de junho. Na terceira etapa da audiência de instrução, que aconteceu no dia 16 de junho, a sessão — prevista para as 10h — começou com mais de uma hora de atraso por causa da demora na chegada de um dos veículos da Secretaria da Administração Penitenciária (SAP). Três testemunhas foram ouvidas: uma policial, indicada pela defesa de Mário e Rafaela, e dois assistentes técnicos, indicados apenas pela defesa de Mário. O interrogatório dos acusados foi o último ato da sessão, realizado na seguinte ordem: Mario, Marcelly e Rafaela. No dia, o juiz concedeu prazo de dois dias para que as defesas apresentem eventuais requerimentos de diligências. Após isso, as partes seriam intimadas a expor suas alegações finais.