Segundo estudos, os ultraprocessados prejudicam nossa saúde reprodutiva e metabólica, mesmo que não sejam consumidos em excesso (Divulgação / Freepik) Homens saudáveis na faixa dos 20 aos 35 anos experimentaram mudanças drásticas em sua saúde reprodutiva após três semanas comendo apenas alimentos ultraprocessados — mesmo mantendo o mesmo número de calorias de uma dieta com alimentos frescos. Alterações nos hormônios sexuais, redução no estímulo reprodutivo e piora da motilidade do esperma são alguns dos sinais citados por pesquisadores. O novo estudo reacende alarmes sobre os impactos do que comemos não só na balança, mas na funcionalidade sexual. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! O que são ultraprocessados, além de fast food? Alimentos ultraprocessados são aqueles que passaram por processamento industrial intenso, contêm muitos aditivos (aromas, emulsificantes, corantes, conservantes), gordura saturada, açúcar, sal em excesso, e muitas vezes um perfil nutricional pobre. Mesmo quando se iguala calorias, proteínas, carboidratos e gorduras com uma dieta baseada em alimentos in natura ou minimamente processados, o processamento industrial introduz outros fatores — contaminação por substâncias químicas, perda de fibras, alterações da matriz do alimento — que podem gerar efeitos adversos. O estudo que ligou ultraprocessados à saúde sexual masculina Um estudo relevante, conduzido por pesquisadores ligados à Universidade de Copenhague e à Université Côte d’Azur, comparou dietas ultraprocessadas versus dietas “não processadas” em homens jovens saudáveis. Cada participante seguiu durante três semanas uma dieta ultraprocessada, depois teve um período de “washout” (intervalo) e passou a dieta mais natural. Mesmo com equilíbrio calórico entre os regimes dietéticos, os voluntários apresentaram aumento de gordura corporal, deterioração nos níveis de hormônios sexuais (como testosterona) e redução do hormônio folículo-estimulante (FSH), essencial para a espermatogênese — processo de produção de espermatozoides. Movimentação (motilidade) dos espermatozoides também diminuiu, entre outros indicadores de piora na qualidade do sêmen. Outros estudos que corroboram os achados Estudo italiano (FASt study) mostrou que homens com alto consumo de ultraprocessados têm menor concentração de espermatozoides, motilidade progressiva reduzida, e tendência a menos células com morfologia normal. Estudo Led-Fertyl também encontrou associação inversa entre participação calórica de ultraprocessados e parâmetros do sêmen (contagem, concentração, motilidade total) em homens saudáveis. Há ainda evidências de que ultraprocessados estejam associados a outras disfunções metabólicas e reprodutivas, mesmo quando não há excesso de ingestão calórica. Os efeitos não são apenas de ganho de peso, mas também de disrupção hormonal e contaminação química. Disruptores endócrinos Ingredientes ou contaminantes químicos, como ftalatos usados em plásticos de embalagens ou processos industriais, migram para os alimentos. Algumas substâncias interferem nos hormônios sexuais masculinos, como testosterona e FSH. Alterações metabólicas Mesmo calorias iguais não garantem efeitos iguais: dietas ultraprocessadas tendem a aumentar gordura corporal, alterar perfil lipídico (razão LDL/HDL), provocar resistência insulínica ou inflamação sistêmica, fatores que por si só podem prejudicar a saúde reprodutiva. Redução da qualidade do sêmen Menor motilidade (capacidade de movimento dos espermatozoides), menor concentração, menor contagem total de espermatozoides, possivelmente morfologia menos adequada — todos impactam a fertilidade masculina. Perda de nutrientes essenciais e fibras Ultraprocessados tendem a ser pobres em fibras, antioxidantes e micronutrientes que protegem contra estresse oxidativo — um dos inimigos da saúde espermática. Ainda que não explorado em todos os estudos, é uma hipótese bem sustentada. (não raro aparece em estudos correlacionais) Consequências a longo prazo Fertilidade comprometida: pode se manifestar em dificuldades para engravidar, necessidade de tratamentos de reprodução assistida, queda de contagens de esperma com o passar dos anos. Impacto hormonal persistente: níveis baixos de testosterona associam-se não só à libido diminuída, mas também a sintomas como fadiga, depressão, ganho de peso, perda de massa muscular. Riscos de saúde geral: as alterações metabólicas — obesidade, diabetes tipo 2, dislipidemias — têm impacto direto e indireto na saúde sexual. Possível agravamento com a idade: à medida que o corpo envelhece, sua capacidade de reparar danos oxidativos e de se adaptar a agressões químicas ou metabólicas diminui, o que pode tornar os efeitos dos ultraprocessados mais severos com o tempo. O que pode ser feito para reduzir o risco? Priorizar alimentos in natura ou minimamente processados: frutas, verduras, carnes frescas, legumes, grãos integrais. Limitar o consumo de alimentos ultraprocessados, mesmo que pareçam “inofensivos” se contiverem rótulos de calorias balanceadas. Ficar atento a embalagens plásticas, evitar aquecer alimentos nelas, preferir vidros ou recipientes livres de BPA ou ftalatos quando possível. Consultar profissionais de saúde ao notar queda de libido, alterações espermáticas ou sinais hormonais fora do comum. Políticas públicas: rotulagem clara, regulamentos sobre aditivos, educação alimentar, campanhas de conscientização, incentivo ao acesso a alimentos frescos e saudáveis.