Viver Bem: Ouvir o outro: uma arte em extinção

Arrogância e narcisismo, estimulados pelo individualismo da época, são barreiras para se abrir e entender as necessidades alheias

“Em nossa gigantesca arrogância, achamos que o que sabemos e o que vivemos é suficiente para conseguirmos resolver os problemas dos outros e entendermos a vida das pessoas”. Você se identificou com o psicólogo Bruno Farias? Muitos têm ideia semelhante, um mal que vem atingindo a sociedade como um todo: deixar de ouvir o outro.

Clique e Assine A Tribuna por apenas R$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços!

Esta é a chave para sair da zona narcisista na qual a sociedade vem se encaixando, segundo Farias. E isso é perigoso, porque pode deixar uma parcela maior das pessoas mais ignorante.

A internet está ajudando a aumentar essa sensação. “As redes sociais ajudam para que nossa vaidade cresça mais. Uma das características dessa vaidade é que nós estamos sempre falando”. Mas não ouvindo. “Se não atentarmos para uma escuta acolhedora, vamos cometer muitos erros”.

A escuta de qualidade é a única saída para entender a subjetividade, explica o psicólogo. A escuta deve ser de aprendizado, não apenas esperar a vez de falar, para moldar o pensamento e ajudar mais o outro.

Humildade

Ouvir melhor tem a ver com aceitar que você não sabe e essa é uma das grandes dificuldades numa sociedade narcisista. 

Fracasso

Segundo o psicólogo, existem estudos demonstrando que os relacionamentos estão fracassando por falta de compreensão. Quem deixa de ser ouvido se sente agredido mental e sentimentalmente. “E ninguém aguenta ser agredido por muito tempo”, diz.

A outra parte da relação muitas vezes nem aprende a lição. Acredita ser boa e se questiona sobre os motivos do fim, segundo Farias.

Efeito Dunning-Kruger

Segundo Bruno Farias, existe um estudo, publicado na revista Journal of Personality an Social Psychology, sobre o efeito Dunning-Kruger, que na prática significa que quanto menos uma pessoa sabe, mais ela acha que sabe. O nome é em homenagem aos dois professores americanos David Dunning e Justin Kruger, que investigaram o fenômeno e publicaram o artigo em 1999. “O estudo mostra que quando qualquer pessoa começa a aprender sobre alguma coisa, ela passa a ter uma alto-confiança da burrice. Significa que aquela informação te encanta tanto a ponto de você achar que tem domínio sobre aquilo”, diz. 

Esse efeito é perigoso, de acordo com o psicólogo. “Quando nos dedicarmos a estudar mais, vamos para um lado da zona do desespero. Essa zona é quando se percebe que existe muito mais sobre o que estava estudando, mas esse conhecimento é tão profundo e complexo que vai exigir muito estudo. Nessa hora, algumas pessoas desistem e outras mergulham mais”, afirma. As pessoas covardes não chegam nem na zona do desespero, elas continuam achando que são sábias, diz o psicólogo. “Para me livrar da ignorância, a chave é se abrir para ouvir. Isso traz questionamentos. Ao invés de mostrar o que sei, ouvir faz ampliar a inteligência”. 

Tudo sobre: