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Segunda-feira

18 de Novembro de 2019

Setembro Amarelo: Dividir problemas é um desafio

Levantamento do Ibope ouve 2 mil pessoas e mostra que jovens têm dificuldade para falar sobre situações de depressão e suicídio

Apesar de tabus parecerem coisa do passado, são os jovens que ainda têm mais dificuldade de falar sobre depressão e suicídio. Isso é o que aponta um levantamento do Ibope Conecta, que ouviu 2 mil pessoas em diferentes regiões do país pela campanha Na Direção da Vida, divulgando o mês de prevenção ao suicídio – o Setembro Amarelo.

A pesquisa foi realizada nas regiões metropolitanas de Fortaleza, Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Entre as principais conclusões, o estudo mostrou que mesmo entre a família os jovens não se sentem confortáveis em demonstrar uma doença que ainda é vista, erroneamente, como fraqueza, problema da alma ou estado de espírito.

Entre os motivos, 63% dos jovens de 18 a 24 anos e 38% dos que estão entre 13 e 17 acham que, se contarem sobre como se sentem, os familiares vão achar que só querem chamar a atenção.

Isso só reforça a atual dificuldade de relacionamento interpessoal, explica a psicóloga e voluntária da Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (Abrata), Silvia Callogerase.

“A gente mudou o estilo de vida. Se, antes, as crianças brincavam com bastante contato na rua, hoje os jovens crescem cheios de atividades, com os pais trabalhando e contato na rede social. Quando um chama o outro é para jogar, ver vídeos. E, se você se isola, sem troca, a dor é mais difícil”, diz Silvia, que também é especialista em Terapia Cognitivo Comportamental.

Vergonha

No trabalho ou na escola, não é diferente. O constrangimento diminui entre as faixas etárias mais velhas. Dos 18 aos 24 anos, 54% dos jovens esconderiam o diagnóstico de depressão – 70% deles acreditam que as pessoas não levam a doença a sério.

A vergonha de um encaminhamento ao psiquiatra também preocupa profissionais. Cerca de um quarto dos jovens de 25 a 34 anos não contaria a ninguém sobre a procura pelo médico e 12% dos entrevistados entre 13 a 17 simplesmente não se consultariam.

Professor de Psiquiatria do curso de Medicina da Universidade Metropolitana de Santos (Unimes), Sidney Gaspar conta que muito do preconceito vem do passado e persiste.

“São Tomás de Aquino definia que nossa psiquê só adoecia porque a gente era fraco. Hoje, sabemos que depressão é doença biológica. Explicar que nosso emocional está dentro de um órgão chamado cérebro é importante”, resume ele, lembrando que principalmente homens evitam pedir ajuda e se medicar. 

Silvia diz que, entre as alternativas de prevenção ao suicídio, está o auxílio contra a depressão – presente na maior parte dos casos.

“Com a mudança do mundo, você fica sabendo de tudo com um toque de dedo, mas e o mundo de dentro? Fica esquecido. É preciso olhar no olho, abraçar, sentir o cheiro, escutar, procurar sentir se o outro está feliz. O que é ser forte? Ser forte é saber pedir ajuda”, finaliza.

Idosos trazem preocupação a quem lida com o suicídio

Apesar de chocar mais entre jovens, é na faixa etária do idoso que há grande preocupação com o suicídio. Segundo especialistas de Santos, os mais velhos têm maior índice de suicídio na região, mas dificilmente as famílias comentam. Algumas acham a depressão comum à idade.

Segundo o levantamento do Ibope Conecta, 89% das pessoas com 55 anos ou mais se sentem à vontade para falar do diagnóstico de depressão com a família. Porém, não buscam ajuda porque acreditam que “vão atrapalhar”. 

Diferentemente dos jovens, 81% deles têm consciência de que a depressão é uma doença como outra qualquer, que pode ser tratada com sucesso. Mas, nem todos aderem ao tratamento, por se sentirem inúteis à sociedade, como explica a psicóloga Silvia Callogerase.

“É triste e vergonhoso dizer isso, mas muitos explicam que só se sentem necessários por causa da questão financeira, ajudando no sustento das famílias. Quando perdem essa característica, fica complicado”.

Pedra no caminho

O professor de Psiquiatria Sidney Gaspar também percebe em pacientes uma cultura machista que atrapalha. “Principalmente o homem quer prover e proteger. E o envelhecimento no universo masculino vem acompanhado de uma série de fragilidades”.

Para ambos, olhar para o idoso e valorizar sua história e sua trajetória são essenciais, sempre indicando ajuda profissional quando necessário.

SERVIÇO – o Centro de Valorização da vida (CVV) atende pelo telefone 188 e tem chat no site cvv.org.br. Já a Abrata em Santos atende pelo WhatsApp (13) 99712-8692 e pelo e-mail abratalitoral@abrata.org.br.

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