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Segunda-feira

22 de Julho de 2019

Sangue, um mundo à parte. Mas se acalme

Exames atestam qualidade e afastam mitos

Tem gente que tatua o tipo sanguíneo na pele. Há motoboys que compram um adesivo para colar a informação no capacete. E há quem não saia de casa sem um documento com a tipagem sanguínea. A preocupação dessas pessoas é ter informação rápida em caso de acidente grave. Mas médicos explicam que dificilmente isso será considerado para uma transfusão. Trata-se de um dos mitos a respeito do tema.

Edmir Boturão Neto, professor de Hematologia da Universidade Metropolitana de Santos (Unimes) e médico-chefe do banco de sangue da Santa Casa de Santos, explica. 

“Quando eu era jovem eu tinha uma correntinha de ouro com meu tipo de sangue. Isso, hoje, não tem sentido. Uma legislação atualizada em 2016 obriga que se façam todos os testes antes da transfusão de sangue a alguém. Você pode informar o que for, mas é checado na hora, tanto do doador, quanto do receptor, quanto da amostra de sangue usada”, conta. 

O sangue

Vice-presidente e integrante do Comitê de Hemoterapia da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH), José Francisco Comenalli Marques Júnior confirma. Ele salienta que letras e símbolos de positivo ou negativo que informam cada tipo sanguíneo são rótulos para identificar as principais características deles. Mas há muito mais detalhes. “Apesar dos conhecidos A, B, AB e O positivo ou negativo, há dezenas de subdivisões e características”. Boturão é mais específico. “São uma série de proteínas e glicoproteínas, os antigenos. Eles se agrupam em sistemas de grupos sanguíneos. A gente tem 35 sistemas. O principal é o ABO. Além disso, tem o RH, que comumente chamamos de positivo ou negativo.”

E por isso que, na prática, conhecer o tipo sanguíneo é importante apenas para os médicos, por causa de reações possíveis em casos de transfusão de sangue ou para casais que pretendem ter mais de um filho.

Afora essas situações, em Antropologia se estudam raças e relações evolutivas mediante a predominância de tipo sanguíneo de cada povo. Em Medicina Legal, é possível usar o tipo sanguíneo deixado numa prova para chegar a um suspeito.

Mitos e verdades

Entre os mitos que o vice-presidente da ABHH desmente está o de algumas pessoas serem mais suscetíveis a doenças que outras por causa do sangue. 

“O sangue não implica nenhuma alteração funcional. A única exceção é um tipo de sangue que não deixa o parasita da malária se instalar, o Duffy. A gente geralmente sabe se a pessoa é O+, AB, mas qualquer uma pode ter essa característica do Duffy no sangue”, explica. De resto, ter tal informação não faz diferença, pois “o mesmo mosquito da malária transmite outras doenças”. 

Outro mito é o da Dieta do Tipo Sanguíneo, livro publicado em 1996 traduzido para 52 idiomas e com mais de 7 milhões de exemplares vendidos. Pesquisadores da Universidade de Toronto, no Canadá, divulgaram em 2014 pesquisa com 1.455 participantes. Concluíram que o regime não funciona.

Uma vacina dá fim ao risco na hora do parto

Um problema que pode causar aborto, a doença hemolítica do recém-nascido tem nome difícil, mas uma causa muito simples de resolver: informar o fator RH diferente entre os pais para que, numa segunda gestação, mãe e bebê não corram riscos. A informação é de Mariele Lopes, médica alergista e imunologista da Clínica Croce. 

Há risco porque, quando um sangue de RH diferente entra em contato com o corpo da mãe, o organismo dela reage para combater aquele componente estranho. Assim, no primeiro parto, a mãe pode criar mecanismos naturais que atacarão um segundo filho.

Por isso, que casais que pretendem ter filhos devem fazer exame de tipagem sanguínea e acompanhamento pré-natal, segundo o médico Edmir Boturão Neto. “Muita gente não sabe, porque há uma vacina usada há poucas décadas que resolve a questão. Antes, diziam que não se podia casar. Mas mulheres com fator RH diferente do homem precisam de acompanhamento. A vacina que a mulher toma destrói os anticorpos que a mãe acabou de produzir”, explica.