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Sábado

18 de Janeiro de 2020

Quando o peso da vida está dentro de nós

Culpa tem dois lados: pode servir à reflexão e à aprendizagem ou minar a autoestima; tudo depende de como lidamos com ela

E, de repente, a cabeça é inundada por alternativas que poderiam ter sido adotadas: e se tivesse feito isso em vez daquilo? Analisando a situação depois que ela aconteceu é bem provável descobrir uma possibilidade melhor e sentir raiva de si mesmo por não ter agido diferente. Aí, vem aquele sentimento de culpa. Quem nunca, não é mesmo?

Na bagagem do nosso cotidiano, quase todo mundo já carregou um pouco – para não dizer muito – de culpa nas costas. Em algum momento, ela pode ter ajudado numa mudança de postura ou atitude, fazendo com que alguns comportamentos fossem reavaliados. Na maioria das vezes, no entanto, ela serviu como um peso, daqueles que dificultam a caminhada e só.

“Culpa é um sentimento decorrente do não atendimento de expectativas próprias ou dos outros”, explica a doutora em Psicologia e coordenadora do Mestrado Profissional em Psicologia da Unisantos, Maria Izabel Calil Stamato.

Maria Izabel afirma que a culpa está ligada às normas e convenções sociais, que definem o que é certo ou errado, de acordo com o contexto e a cultura em que o indivíduo está inserido. Ela pode ser positiva quando resulta em um processo de reflexão e crítica consciente sobre determinada atitude ou escolha.

“É positiva quando leva à conscientização e responsabilização sobre como estas [atitudes] afetam as pessoas, gerando mudanças na forma de agir e se comportar em busca de harmonizar a vida em sociedade”, diz.

Por outro lado, a culpa pode ser tóxica, minando a autoestima, enfraquecendo a autoimagem e transformando a pessoa em um carrasco de si mesmo com cobranças exageradas e indevidas, “tornando-se um peso na vida do indivíduo e impedindo, inclusive, que este se conscientize e aprenda com seus próprios erros”, acrescenta Maria Izabel.

Para Camila Cury, psicóloga e presidente da Escola da Inteligência, existem vários desdobramentos nocivos sobre o sentimento da culpa, pois em doses acentuadas ela nos traz desconforto emocional, nos desgasta, paralisa, mina nossa autoestima e capacidade de tomada de decisões emocionalmente mais saudáveis.

Orgulho 

Pode até parecer contraditório, mas muitas vezes o sentimento de culpa está ali, bem perto, do orgulho. 

“O medo de falhar, a dificuldade em elaborar o orgulho pessoal diante de suas próprias falhas, em especial quando desenvolve-se conjuntamente o hábito de julgar e condenar de maneira acentuada os erros dos outros, podem ser gatilhos impactantes na maneira como a pessoa gerencia suas emoções e ações”, avalia Camila 

Essa pode ser uma combinação perigosa e não é difícil que desse caldeirão se forme um ciclo destruidor a médio ou longo prazo: cobrar-se demais e ver-se preso ao orgulho de não assumir suas dificuldades ou limitações. 

“Tudo isso gera um sentimento de culpa por sentir-se falho e com medo de ser rejeitado, por exemplo. Com isso, a pessoa pode se fechar, blindando-se cada vez mais ao falar de si”, diz. Por isso, a dica é ir com calma. É importante perceber que somos mortais e sempre sujeitos a errar e tentar novamente até fazer dar certo.   

“Enxergar-se e permitir que os outros o enxerguem exatamente como você é pode ser a chave para exercitar a libertação de sentimentos nocivos, dentre eles, a culpa por não ser perfeito”, aconselha Camila.

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