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Sexta-feira

22 de Fevereiro de 2019

Primeira Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência alerta sobre o tema

Mães relatam a experiência da primeira gravidez logo cedo, e as situações que passaram durante o período de gestação

A Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência, sancionada no inicio de janeiro, está ocorrendo pela primeira vez. De acordo com a lei, devem ser realizadas ações anuais na semana que incluir o dia 1º de fevereiro. Ela tem como objetivo promover ações e atividades que visam educar os jovens sobre saúde reprodutiva.

Embora a implementação da data expresse a preocupação em orientar os brasileiros sobre os riscos da gravidez precoce, os métodos contraceptivos de longa duração, comprovadamente mais efetivos, são os menos considerados por ginecologistas para adolescentes.

Para a ginecologista e obstetra Thais Ushikusa, a semana é importante para aumentar a conscientização, pois as pessoas não têm ideia da quantidade de adolescentes grávidas no Brasil. Ela aponta que uma a cada cinco jovens ficam grávidas antes dos 20 anos, o que resulta em 20% da população de adolescentes.

“Dessas que engravidam, 25% param de estudar temporariamente, e 18% param de estudar definitivamente. Quando têm o bebê, 63% não trabalham no momento e 7% não voltam mais para o mercado de trabalho", analisa. Thais afirma que o problema não é só da adolescente. Ele impacta a mulher, o homem, as famílias de ambos e aumenta a disparidade econômica. Algumas jovens abandonam o estudo, ficam com dificuldade de se recolocar no mercado, podem ter gestação de risco e causam maiores custos da saúde.

A médica informa que as jovens podem usar qualquer tipo de método contraceptivo, sendo os de longa ação os mais aconselháveis. “No Brasil, temos três: o DIU de cobre, que dura de cinco a dez anos; o DIU hormonal, que dura cinco anos; e o implante subcutâneo, que dura três anos. Todos são reversíveis, caso a mulher queira engravidar futuramente”, disse.

O problema, segundo Thais, é que as jovens não conhecem todos os métodos, apenas os mais comuns, que possuem maior chance de falha. A doutora ainda alerta que nenhum método é 100% seguro, então é possível combinar métodos como a camisinha (que alem de prevenir a gravidez evita a contaminação de DSTs) e a tabelinha, com métodos como o DIU e o implante hormonal.

A médica afirma que quanto mais as mulheres souberem sobre os métodos contraceptivos, mais chances elas têm de controlar sua vida e planejar uma família. “Esse conhecimento tem que vir desde a adolescência, tanto para homens quanto para mulheres. Assim, podemos aumentar a qualidade de vida das jovens, tendo acesso a estudo e trabalho, garantindo o direito feminino, e por fim, melhorar a sociedade como um todo” finalizou.  

Mães aos 17

Izabelle Martinez, de 18 anos, conta que engravidou aos 17. Ela, que tinha conhecimento sobre os métodos contraceptivos, tinha receio de opiniões alheias no que dizia respeito à sua gravidez. “A sensação foi que minha vida tinha acabado, eu tinha vergonha do que as pessoas iam falar de mim”, disse.

Izabelle no dia em que sua filha, Laura, nasceu (Foto: Arquivo pessoal)

Izabelle conhece muitas mulheres que foram mães jovens, e a maioria diz que não queria ter filhos tão cedo. Ela, que é dona de casa, gostaria de ter esperado mais um pouco para ter sido mãe, mas, ao mesmo tempo, não se arrepende de ter tido sua filha, Laura.

Já para Patricia Rodrigues, de 25 anos, analista de marketing, a gravidez foi uma escolha. Ela, que fazia uso de anticoncepcional antes de querer ser mãe, disse que a “decisão” foi no calor do momento, na época, aos 17 anos. “Eu era jovem e imatura demais. Acreditava que sabia o que estava fazendo, mas, na verdade, eu só estava vivendo uma fase de paixão e queria acelerar as etapas e começar uma família”, disse.

Patricia conta que sentiu muito medo de contar aos pais, de não conseguir mais estudar ou arrumar um emprego além de ser julgada por ser jovem demais. ”Eu sempre aparentei ser mais nova que minha idade, então, as pessoas me olhavam horrorizadas, faziam comentários maldosos, e em alguns casos até xingavam e culpavam a minha mãe por 'falta de surra'", comentou.

Patricia engravidou do fiho, Guilherme, aos 17 anos de idade (Foto: Arquivo pessoal) 

Quando o filho de Patricia, Guilherme, fez um ano, o pai os abandonou. Ela, então, voltou a morar na casa dos pais e recomeçar do zero. ”Minha mãe me ajudou muito nessa fase, mas, mesmo assim, enfrentei meus obstáculos sozinha. Se a maternidade em si já é um desafio, ser mãe solo em uma sociedade cruel é bem pior”, afirmou.

Para a analista de marketing, a deficiência de conhecimento não é sobre se prevenir, mas, sim, sobre entender os desafios da maternidade na juventude. “A maternidade não será um problema se você tiver um apoio, alguém para te dar uma estrutura mais confortável, como no meu caso. Mas esse tipo de suporte é muito raro. Se você se torna mãe na adolescência, nem terminou seus estudos, não tem estabilidade financeira e não tem apoio nenhum, seja do pai da criança ou dos seus familiares e amigos, é, sim, um problema grave e triste”.

Patricia acredita que uma solução pudesse ser instituições de apoio as mães solos, sejam elas jovens ou não. “Seria incrível e possibilitaria oportunidades para esse público carente que além de precisar sustentar o bebê, precisa também se estabelecer no mercado de trabalho”, finaliza.