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Sábado

8 de Agosto de 2020

Pandemia muda a forma de lidar com o luto e especialistas falam como aliviar a dor

Além de uma crise epidemiológica, especialistas dizem que a sociedade vive uma crise psicológica

Crise psicológica. Além de uma crise epidemiológica, especialistas dizem que a sociedade, em tempos de pandemia de coronavírus, vive um sofrimento coletivo em muitos outros aspectos. Um deles é o luto, que modificou rituais que ajudavam a lidar com as perdas de alguém querido.

Segundo a psicóloga Carla Albuquerque, todas as pessoas estão perdendo alguma coisa. Seja o emprego, a mudança no ambiente do trabalho passando para dentro de casa, a convivência com familiares e amigos e até a morte em si.

“Ela afirma que, além da perda de entes queridos, ou do emprego, assistimos à destruição de algo maior: “A rotina nos dá a sensação de âncora na vida e ela está virada do avesso. É ver a realidade que conhecemos há anos desmoronando e não poder fazer nada a respeito.”

Ela explica ainda que existe todo um ritual na hora do luto, como velório e enterro. E que tudo isso tem um impacto na saúde mental, já que serve para confortar e suavizar o golpe da perda.

“No caso dos pacientes com covid-19 em estado grave, uma grande preocupação tem a ver com o isolamento. Eles são privados de uma visita, de um contato. E a família também não pode segurar a mão dessa pessoa, pedir perdão ou perdoar.”

A falta de conexão com outras pessoas agrava ainda mais toda essa situação, pois tornam-se comuns os sentimentos de solidão e tristeza.

“É preciso ter atenção, porque o quadro fica muito grave bem rápido. Os principais sintomas são falta de ânimo para realizar ações e atividades do dia a dia”, explica o psicólogo Sandro Toledo.

Algumas das saídas para lidar melhor com a situação são ter um diário para escrever o que sente, procurar atendimento psicológico mesmo pelas redes sociais e se dedicar à atividades que gosta. 

Não dizer adeus da mesma forma de antes pode causar o que especialistas chamam de luto complicado, quando esse processo se torna um problema de saúde sério. Em tempos como os da pandemia atual, isso pode ter a ver com o prolongamento dos sintomas vivenciados pelo luto.

“Não estamos dizemos adeus da mesma forma, com um abraço que ampara, com o olho no olho que acolhe e com o conforto que sempre estivemos acostumados. É como se a sensação de vazio de quem perde alguém fosse aumentada infinitamente”, explica Sandro.

Como lidar

Cada um vai lidar com o luto de uma forma e a retomada da varia de pessoa para pessoa. Todo o processo terá a ver com a aceitação da perda, o foco em si mesmo e como lidar com a dor. Mas algumas dicas ajudam a aliviar a sensação de vazio e a ultrapassar esse momento tão doloroso.

“O primeiro ano costuma ser o mais difícil por ser a primeira vez que o enlutado lidará com datas importantes sem a presença da pessoa querida. Conversar é fundamental, seja com um amigo, um parente que sente a mesma dor ou até um especialista. Muitos estão atendendo por vídeoconferência devido à pandemia. O importante é compartilhar seus sentimentos”, diz Sandro.

Quem conhece alguém que perdeu um familiar ou amigo durante a pandemia, seja por coronavírus ou não, é importante estar presente. “Mande uma mensagem, ligue, mostre que está longe, mas está presente. Isso ajuda em todo o processo, pois a pessoa se sentirá amparada”, recomenda a psicóloga Teresa Cristina Santana.

Para ela, é fundamental se reinventar também no processo de encarar o luto.

“Esse é mais um ponto que mudará daqui para a frente. Ver fotos, vídeos e ter recordações é saudável. Criar um ritual que simbolize essa perda é uma atitude positiva.” 

Outra questão é lidar com o número de mortes, que aumenta dia após dia, mesmo sem conhecer as vítimas. Tudo isso também deve ser trabalhado dentro de cada um, principalmente em um momento em que a maioria está dentro de casa e longe de outras pessoas.

“Além de tomar os cuidados necessários indicados pelas autoridades, é importante conversar com outras pessoas sobre esse assunto. É ruim preocupar-se demais e ficar obcecado com o assunto, mas também é ruim a negativa de que estamos vivendo uma situação atípica e não se importar com a dor de outras pessoas”, diz Teresa Cristina.

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