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Domingo

19 de Maio de 2019

O bom e o mau da ansiedade

Em pequenas doses, ela dá ânimo e ajuda a cumprir tarefas; em excesso, pode causar distúrbios e doenças

Você foi chamado para uma entrevista de emprego na empresa dos sonhos e só consegue pensar nisso, imaginando o que pode acontecer. O coração chega a acelerar. Sim, você está ansioso e está tudo bem. Apesar de ter virado palavra quase non grata no dicionário do cotidiano moderno, a ansiedade, até certo ponto, é positiva. É sua mente e seu corpo preparando-se para eventos e respostas importantes. No entanto, como diz a sabedoria popular: o remédio pode virar veneno.

Digamos que a ansiedade pela entrevista o levou a conferir se a roupa que usaria estava ok, revisar o trajeto até o local, garantindo pontualidade, e até pensar melhor no que falaria para o recrutador. Enfim, com a dose certa, seria possível eliminar alguns problemas evitáveis. 

Porém, em outro grau, essa ansiedade poderia fazer com que você não dormisse pensando que perdeu a hora, que o recrutador não gostou de você ou o que fazer se uma enchente te impedisse de chegar. No fim, cansado e nervoso, até poderia travar na hora da entrevista, jogando a oportunidade fora. 

“Ansiedade é o medo antecipatório e isso é positivo. Para os homens da caverna era muito mais importante sentir ansiedade e evitar que fossem devorados do que sair e se sentir bem ao ver uma paisagem bonita”, explica Maria Eugênia Copetti, psicóloga clínica, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e pesquisadora do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP.

Qual o medo

Segundo ela, a questão principal é entender qual é o medo antecipatório. Afinal, ter medo de errar, de falhar ou do que vão falar, por exemplo, são medos improdutivos. “A ansiedade é positiva quando nos faz enxergar recursos e nos leva a realizar ou nos protege de algo. Agora, o medo de errar é improdutivo porque errar é natural”, avalia ela.

“O mínimo de ansiedade gera motivação, dá foco e direção”, explica o médico e psicólogo Roberto Debski, que tem pós-graduação em Atenção Primária à Saúde e diversas formações em Práticas Integrativas e Complementares, meditação e coaching.

No entanto, diz ele, pode ser desenvolvida de forma patológica em vários níveis, prejudicando a qualidade de vida e até levando a transtornos graves. “Ansiedade é o excesso de futuro, geralmente cercado de pensamentos negativos”, afirma. 

Corpo

E a ansiedade não fica aprisionada na mente. Muito pelo contrário. Ela tem efeitos físicos. Como nos provoca medo, aciona um alerta no corpo que irá, como faz desde os primórdios, avaliar se é melhor lutar, fugir ou se fingir de morto. 

“Esse alerta faz com que o sangue concentre-se no coração e ele bate mais rápido. Por isso, as extremidades, mãos e pés, podem ficar gelados. Se estivermos comendo alguma coisa, o cérebro vai entender que gastar energia com digestão não faz sentido nesse momento, por isso, a pessoa pode ter dor de barriga ou enjoo. Para um perigo real, isso é ótimo”.

Segundo Debski, algumas pessoas crescem em respostas exageradas a alguns eventos. Por outro lado, uma experiência ruim que não foi bem processada pode gerar momentos de ansiedade toda vez que se repetem. “O caso de homens que não têm problemas físicos, mas têm disfunção erétil. É a ansiedade, um fator emocional, gerada por experiência negativa”.

Se...

Maria Eugênia explica que o cérebro equilibrado trabalha com probabilidades. Já o cérebro do ansioso funciona baseado em possibilidades e essas são muitas e, muitas vezes, fora do nosso controle.

“E a nossa sociedade colabora com isso. Muito da ansiedade relaciona-se com a violência. Fora isso, a cobrança, tanto interna quanto externa, é grande. E aí a pessoa não pode falhar, de não ser rico, de não ser bom o suficiente ou bonito o suficiente”, diz Maria Eugênia. 

Ligada a esses valores e não tratada, muitas vezes a ansiedade acaba se associando à depressão ou transformando-se em transtornos de ansiedade, como ataques ou síndrome do pânico e fobias.

A mente no agora, caminho para a calma

Para o Kadam Milo, professor residente do Centro Budista Kadampa Lamrim, em Santos, tentar manter a mente no agora ajuda a ter uma vida menos ansiosa e mais produtiva. “Muitas pessoas nos procuram. Estão mais agitadas e falam de uma mente que não conseguem controlar. Mas todos nós temos acesso à própria mente”, diz.

É claro que a realidade que se experimenta dificulta um pouco. Como diz Milo, vivemos muitas realidades, e fazer muitas coisas ao mesmo tempo colabora com esse descontrole mental.

“É como se nossa mente fosse um celular. Quando começamos a abrir muitas janelas, pode dar problema. A ideia é termos experiências positivas em uma janela de cada vez”, orienta. Então, se é para ler um livro, dedique-se alguns minutos àquilo. Se é para dançar, aproveite a dança. 

“Tente fazer aos poucos e, principalmente, preocupe-se com assuntos que você pode resolver naquele momento”.

Hábito

A prática de meditação focada na respiração é um hábito que, segundo Milo, ajuda a trazer mais calma e foco para o dia a dia. “A respiração só acontece no presente. Então essa prática nos acalma e nos faz prestar atenção no momento” (veja ao lado).

Para o médico e psicólogo Roberto Debski ter um estilo de vida mais saudável também ajuda. “Praticar exercício físico, ter uma boa alimentação e sono de qualidade é importante. Com menos ansiedade, é possível sofrer menos, lidar melhor com os problemas, planejar melhor as soluções. Isso aumenta nosso desempenho e felicidade”, garante.