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Terça-feira

15 de Outubro de 2019

'O bom é que a casa seja adaptada a vida toda para prevenir quedas'

Entrevista com o fisioterapeuta Tiago da Silva Alexandre, presidente da área de Gerontologia do 11º Congresso Paulista de Geriatria e Gerontologia

“Cair de maduro é para fruta”. Esse é um slogan muito usado em várias campanhas de prevenção de quedas no idoso, e o fisioterapeuta Tiago da Silva Alexandre, presidente da área de Gerontologia do 11º Congresso Paulista de Geriatria e Gerontologia, realizado recentemente em São Paulo, concorda plenamente com ele: “Não é comum cair, a queda é um problema de saúde pública e tem consequências muito graves na população idosa. Há vários problemas que aumentam o risco de quedas. É importante, quando ocorrer, procurar um especialista para encontrar a causa e o tratamento correto. Aqueles que caem uma segunda vez têm mais de 50% de chance de ir a óbito no próximo ano. São dados epidemiológicos que assustam, mas que devem ser considerados”.

Tiago possui graduação em Fisioterapia pela Universidade de Taubaté, especialização em Gerontologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mestrado em Reabilitação pela Unifesp e doutorado em Saúde Pública pelo Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP. Atualmente, dá aulas no Curso de Gerontologia na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Confira trechos da entrevista que concedeu para A Tribuna:

Por que o velho cai?

Temos vários fatores. (...) Os intrínsecos são aqueles relacionados ao próprio indivíduo e a alguns problemas que acometem a população idosa e que aumentam a prevalência da queda. E os extrínsecos são aqueles relacionados ao ambiente, que aumentam o risco de o indivíduo cair, uma vez que ele não tem mais condições de responder às adversidades do local.


É grande o número de idosos que caem?

A partir dos 60 anos de idade, um terço da população idosa cai. (...) Na verdade, o pior é que, desses 33% que caem, quase a metade vai cair novamente no próximo ano. São os chamados “caidores recorrentes”. Os principais problemas da queda única ou recorrente são os desfechos negativos, como fratura de fêmur, fratura do punho ou da coluna, que na recuperação provocam maior dificuldade para que a pessoa retorne à sua atividade rotineira por falta de reabilitação.


É comum casos de pessoas que, depois que caem, não voltam mais à condição normal. Por quê?

Essa reabilitação fica mais difícil porque a queda aumenta a chance de aparecer a síndrome da imobilidade, o paciente fica imobilizado por muito tempo por conta das fraturas e ainda começa a sofrer complicações. O pior é quando ele fica acamado por muito tempo, quando há mais possibilidade de desenvolver pneumonia ou infecções, que podem levar a óbito. Além disso, existe o risco de a pessoa cair e bater a cabeça e formar um hematoma subdural, um sangramento na região entre as membranas do cérebro que aumenta muito o risco de morte. 


Que outros motivos provocam quedas?

As pessoas caem por problemas visuais, por problemas articulares, por alterações relacionadas ao processo de envelhecimento que fazem com que o idoso tenha menos músculos, por alteração nas respostas que ele tem ao desequilíbrio postural, por tontura ou vertigem, por declínio cognitivo e até por problema cardíaco. Há um conjunto grande de situações que levam o idoso a cair. Como a pessoa, ao longo da vida, vai tendo uma certa modificação do corpo, tanto nos músculos quanto no sistema nervoso central, a capacidade de responder a esses desequilíbrios, que normalmente se enfrentam bem, com a idade será menor. (...)

Qual o maior risco?

Depois da primeira queda, o ponto mais importante é continuar se expondo ao risco de cair novamente. A pessoa não consegue identificar a limitação que tem para encontrar o equilíbrio em determinadas situações.

O fato de o idoso não reconhecer suas limitações e não querer, por exemplo, usar bengala ou sapatos especiais, não piora o problema?

É muito difícil para todos nós aceitarmos o processo de limitação que nos é imposto ao longo da vida. (...) A bengala é o mais indicado para quem tem problemas de desequilíbrio. É fundamental conscientizar o idoso e, principalmente, ajustar esse dispositivo à altura certa para que ele possa se equilibrar, para que treine o dispositivo de forma correta e que veja as vantagens, não as desvantagens. Eu aconselho sempre a comprar o dispositivo só depois que um especialista orientar qual o melhor equipamento para cada caso. E, depois disso, levar ao consultório para ver se está adequado e fazer os ajustes necessários à altura do paciente.

As mulheres caem mais?

Sim (...). As mulheres têm uma reserva menor de massa muscular. (...) Os homens tendem a perder mais rápido, mas o efeito nas mulheres é maior. As mulheres que têm fraqueza muscular e obesidade abdominal caem mais. Não é verdade que só o idoso mais magro e enfraquecido cai. O idoso obeso também cai.

As quedas acontecem mais dentro ou fora de casa?

Depende. Para os indivíduos mais ativos fisicamente, as quedas acontecem mais nos ambientes externos, eles se expõem mais. Os mais limitados caem mais no domicílio porque não se expõem tanto ao ambiente externo. Quem tem um nível maior de dependência cai mais dentro de casa. Mas isso não significa que o mais independente também não caia no banheiro ou na cozinha de casa, ao subir uma escada ou fazer um serviço doméstico. 

O velho tende a arrastar mais os pés. Dá para reaprender a andar direito?

Com a idade, há mais dificuldade de se fazer esse movimento de tríplice flexão, do quadril, do joelho e do tornozelo para poder tirar o pé do solo, ficar em uma perna só e dar o passo, como é normal. (...). Com a diminuição do tempo para ficar no apoio de uma perna só, esse idoso vai tentar fazer com uma base mais alargada e dar passos mais curtos para ter mais segurança do ponto de vista do equilíbrio.

Ele desaprende a andar corretamente?

Não é que o idoso não saiba andar corretamente, mas ele vai ter mais tranquilidade e segurança andando dessa forma, sem permanecer tanto tempo em uma perna só. Além disso, ele tem a perda de massa muscular e de força que prejudica o movimento que ele faz. (...).

Começar a treinar para andar e prestar atenção, adianta?

Os estudos mostram que as atividades que são feitas com dupla tarefa (conversar e fazer contas, andar e olhar o celular, por exemplo) fazem com que os idosos caiam mais por não prestar atenção no andar. O que precisa ser feito é um bom treinamento de integração sensorial com um bom fisioterapeuta, um bom fortalecimento muscular e bom treinamento de uso das informações visuais, para manter a sua mobilidade sem cair.

O que o senhor recomenda?

Primeiro, uma boa avaliação para identificar qual é o problema que a pessoa tem. Depois, trabalhar especificamente com esse problema do ponto de vista médico, no tratamento das condições clínicas ou no processo planejado de reabilitação e fisioterapia.

Quando é o momento de fazer adaptações em casa?

Costumamos dizer que o bom é que a casa seja adaptada a vida toda para prevenir problemas. Afinal, não é só velho que cai. Muitas vezes, o jovem também escorrega no banheiro, mas, como tem uma boa resposta, consegue se equilibrar melhor. O momento é aquele em que a pessoa começa a perceber que está precisando de algum suporte. (...) 

E os tapetes?

(...) Aconselho colocar, pelo menos, fitas adesivas para prender as beiradas no solo. Também sugiro evitar chinelos ou sandálias abertas atrás e retirar fios expostos que podem provocar quedas. Outro cuidado é com a iluminação correta, principalmente quando a pessoa levanta durante a noite. 

Há algum exercício recomendado para evitar quedas?

O tai chi chuan é um dos mais recomendados exercícios para melhorar o equilíbrio e prevenir quedas, mas sempre com orientação médica.

Quando a pessoa sofre uma fratura e é preciso ficar imobilizado, é um problema, não é?

Quando ocorre a fratura, o ortopedista deve discutir com a equipe multidisciplinar os procedimentos. Hoje em dia, os profissionais procuram liberar o mais rapidamente possível o paciente para sentar, ficar em cm pé e caminhar. Os protocolos mudaram. A fisioterapia e o exercício podem melhorar ou recuperar as funções perdidas, mas sempre é essencial a supervisão do especialista.