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Sexta-feira

24 de Maio de 2019

Nova cura para o HIV gera esperança em pesquisadores

Pela segunda vez, cientistas eliminaram o vírus da aids de um paciente sob tratamento; por enquanto, porém, o melhor é a prevenção

Para serem aplicados na vida e em tratamentos, os achados da ciência precisam ser repetidos. É por isso que a comunidade científica e quem vive com HIV veem com esperança a notícia de que um homem de Londres, na Inglaterra — no segundo caso em 13 anos — conseguiu eliminar a presença do vírus do organismo após um transplante de medula.

“Mas o mais importante ainda é a prevenção”, salienta o infectologista Evaldo Stanislau, professor do curso de Medicina da Universidade São Judas Tadeu, em Cubatão, e diretor da Sociedade Paulista de Infectologia.

Stanislau explica que o caso anunciado nesta semana resulta de uma pesquisa da Universidade de Cambridge. Ela descreve o caso de um homem que contraiu o vírus em 2003 e, em 2012, apresentou o diagnóstico de um tipo de câncer no sangue, o Linfoma de Hodgkin. Ele tem sido chamado de Homem de Londres pelos pesquisadores.

Tanto neste caso quanto no anterior, de 13 anos atrás, o HIV foi eliminado após transplante de medula óssea. “O tecido que foi eliminado, para ser substituído por um tecido saudável, foi o linfoide. Os dois pacientes receberam uma medula óssea de doadores com uma mutação. Eles não produziam duas reprodutoras que funcionavam como porta de entrada do HIV no organismo.”

O que se confirmou é que, sem essa porta de entrada, o HIV não se reproduz no organismo da pessoa infectada. “Na prática, o vírus domina as duas quimiocinas, a CCR5 e a CXCR4. Precisa se conectar nessas proteínas, usar o maquinário da célula e produzir partículas filhas. Quando não tem esse receptor, ele não entra na célula. Morre sem deixar sucessores.”

Stanislau explica que o tecido linfoide é responsável pela defesa do organismo, “As células atacadas pelo HIV nos defendem das infecções. Quando o vírus nos ataca, depois de anos que ele destrói nosso sistema de defesa, começa a manifestar doenças, como câncer, tuberculose”, relata. Para ele, a pesquisa é relevante por comprovar o que já se fez, mas o melhor ainda é se prevenir.

Prevenir-se

O especialista diz haver dois tipos de prevenção. De um lado,diagnosticando e tratando.“Quando se trata a pessoa com carga indetectável, ela não transmite HIV.(...) Alguém sob tratamento não transmite o vírus”,cita.

A segunda é a prevenção combinada: o uso do preservativo, aliado à profilaxia pré-exposição (PrEP). “Trata-se de tomar o medicamento antirretroviral. Menos de 0,5% da população brasileira vive com HIV. Mas, em grupos específicos, a prevalência chega a 40%. É preciso oferecer PrEP à população de maior vulnerabilidade: homens gays, mulheres transe travestis.”

O ativista Beto Volpe, que há 30 anos convive com o HIV, acompanha a notícia com entusiasmo. “Quando surgiu o paciente de Berlim (o primeiro curado, na Alemanha), me debrucei muito nesse caso. Agora, temos o segundo caso com a mesma estratégia. Para a gente, é mais um caso.Mas, para a ciência, abre uma fronteira gigantesca”. Stanislau, porém, destaca “preocupação de recuo nas políticas de HIV. Do ponto de vista científico, não se justifica”.