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Segunda-feira

14 de Outubro de 2019

'Muitas vezes, a irritabilidade é o primeiro sintoma de depressão', diz especialista

Médico Pedro Pan, psiquiatra especialista em depressão em adolescentes, fala sobre como identificar sintomas da doença

Adolescentes têm sintomas específicos de depressão que se diferem dos adultos e precisam de mais atenção dos pais. Nesse momento, o mais importante é fazer menos julgamentos e ter mais diálogo, buscando o melhor encaminhamento para o jovem.

O médico Pedro Pan, de 35 anos, doutor em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), retornou há poucos dias da Alemanha, para onde viajou com um grupo de profissionais brasileiros em busca de parcerias para pesquisas em psiquiatria, com foco em transtorno de humor, depressão e neuroimagem.

Pan, que é pós-graduado em Psiquiatria do Desenvolvimento e especialista em depressão em adolescentes, tem consultório em São Paulo e esteve recentemente em Santos para participar do evento Como Lidar com a Depressão no Ambiente Escolar?, organizado pela Escola Superior de Administração e Gestão (Strong Esags) de Santos. No local, conversou com A Tribuna. Leia, a seguir, trechos da entrevista.

AT - Quais são as novidades em estudos sobre depressão entre adolescentes?

Existem hoje novas formas de tratamento, que têm sido testadas em adultos já no Brasil, com potencial de aplicação em adolescentes. São formas de estimulação elétrica transcraniana. Não tem nada a ver com eletroconvulsoterapia (técnica em desuso, que consiste na passagem de uma corrente elétrica de alta voltagem sobre a região temporal). São eletrodos, que têm pouquíssimos efeitos colaterais, com uma corrente alternada. Poderiam, em alguns casos, substituir medicações ou serem opção quando o remédio não funciona. A gente sabe que de 50% a 60% respondem ao tratamento medicamentoso. Então, necessita-se de novas formas para tratar a depressão.

AT - Para quais sintomas seria indicado esse tratamento?

Para tristeza, desânimo, falta de interesse, perda de prazer nas atividades que a pessoa tinha, que são algo muito marcado na depressão.

AT - Hoje, há aplicativos que podem ajudar no tratamento da depressão?

Estamos vendo o surgimento de métodos para promover tratamento com meios digitais. Temos várias plataformas sendo testadas para fazer psicoterapia por meio de aplicativos. Há estudos bem interessantes mostrando resultados promissores. Não tem o contato pessoal com um psicólogo, mas é para ensinar ferramentas para lidar com os sintomas da depressão. Algo muito baseado no que chamamos de terapia cognitivo comportamental. É um dos tipos que mais funcionam.

AT - E sobre medicamentos, há alguma evolução?

Se pensarmos numa perspectiva de 30 anos, houve evolução importante. Temos hoje medicações com um equilíbrio muito melhor em termos de efeitos colaterais e terapêuticos. Mas, infelizmente, não tivemos um grande marco, um remédio que funcione para todos ou que tenha um nível de eficácia ótimo. A psicoterapia é fundamental no tratamento e pode ser a primeira linha na escolha para um adolescente deprimido.

AT - Quais as características da depressão na adolescência?

São um pouco diferentes das do adulto. A irritabilidade é uma característica que aparece muito na adolescência, e é difícil diferenciar o que é do adolescente e o que é depressão. Mas, muitas vezes, é o primeiro sintoma. Tendência a ficar explosivo, irritado,nãoconseguir manejar bem os impulsos mais agressivos. Outra característica é a perda de interesse naquilo que dava prazer anteriormente. O adolescente que gostava muito de sair com os amigos e para de fazer isso, que gostava de jogar videogame e para. É uma forma melhor de ver se tem um problema ali do que somente a tristeza. Porque, muitas vezes, o adolescente tem oscilações de humor.

AT - Há diferenças entre garotos e garotas?

A quantidade de depressão na infância, até os 10, 11 anos, é muito parecida entre meninos e meninas. Na adolescência é onde isso muda e vira o padrão do adulto: a mulher tem mais chance de ter depressão do que o homem. Então, provavelmente há fatores hormonais e culturais que fazem com que exista uma diferença. A adolescente tem mais humor disfórico, desconfortável, irritado, que responde exageradamente a situações, muitas vezes com raiva. Assim como, em situações mais graves, é mais comum na garota a autolesão não suicida. Aquela coisa de se machucar, mas sem ter a intenção de morte, mas alívio de uma angústia.

AT - Existem exames de imagem que podem identificar características de uma pessoa com depressão?

Em pesquisas, a gente consegue identificar alguns padrões cerebrais que, inclusive, vão acontecer antes do desenvolvimento do quadro. São exames de ressonância magnética do crânio que mostram, por exemplo, um padrão alterado, um funcionamento diferente dos circuitos cerebrais. Mas isso ainda não chegou para a prática clínica. No consultório, o diagnóstico é por meio de exame clínico, entrevista, conversa, investigação do comportamento do paciente.

AT - É possível identificar comportamentos em crianças que podem sugerir possível de pressão futura?

Há marcadores de comportamento em crianças pequenas, mas, claro, nada é 100% na Medicina. São crianças que têm uma inibição comportamental, uma dificuldade de socializar muito grande, elas se mostram muito acanhadas em situações em que são desafiadas e têm dificuldade de se afastar dos pais. Isso a partir dos 5, 6 anos.

AT – Quais são os principais fatores que desencadeiam o problema entre os jovens?

Os principais gatilhos são situações traumáticas, de negligência, abuso, maus tratos. Isso tudo está muito associado a quadros depressivos. Entra nesse campo o bullying, que é uma forma de abuso. O que temos achado em estudos é que, quando passamos por evento estressor que envolva ameaça, temos mais chance de desenvolver um problema depois. Crianças que sofreram violência têm mais chances de desenvolver depressão do que quem perdeu o pai, que também é uma situação traumática.

AT - Imagino que seja difícil para um adolescente ir ao psiquiatra. Como deve ser essa abordagem dos pais?

O diálogo é o que deve prevalecer: na família, escola, com amigos. Ainda existe muito estigma para a doença mental. Mas as pessoas estão tendo mais coragem de dar esse passo e falar que têm depressão, problemas com drogas. A ideia é dar abertura para o jovem falar o que está sentindo, sem julgamentos. Hoje temos as mídias sociais, que são importantes. Muitas vezes nesse contato com os amigos é que vão aparecendo os primeiros sintomas e que se pode oferecer ajuda.

AT - Em que ponto a tecnologia é prejudicial? Hoje vemos crianças grudadas em celulares, em redes sociais ou jogos…

O uso exagerado, viver em isolamento no mundo digital, pode estar associado a depressão. Mas isso veio para ficar. A dúvida é: qual é o limite? Não temos pesquisas definitivas, vale o bom senso. Se isso se tornou a principal coisa da vida desse jovem, se ele deixa de ter interações sociais, começa a perder aproveitamento na escola, setor na uma dependência. E está associado a maior risco de transtornos mentais.