EDIÇÃO DIGITAL

Quarta-feira

21 de Agosto de 2019

Estresse provocado pela correria diária pode ser gatilho para manifestação de doenças

É comum ter a impressão de que faltam horas no relógio. Especialistas recomendam desaceleração da rotina

Trabalhar mais, exercitar-se mais, qualificar-se mais. Com cada vez mais e mais atividades na agenda, é comum ter a impressão de que faltam horas no relógio, o que nos obriga a correr. O problema é que afundar o pé no acelerador prejudica a saúde física e mental e pode transformar pessoas em bombas-relógio. Então, desacelere para não explodir.

Segundo o historiador Rodrigo Turin, de forma geral, estamos correndo mais e, por isso, estamos mais exaustos. “Todos os dados e pesquisas apontam para esse esgotamento físico e psíquico dos indivíduos”. 

Turin é doutor em História pela UFRJ e pesquisa o conceito de aceleração social, que é a intensificação de tarefas a serem realizadas dentro de intervalos fixos de tempo.

O tempo cronológico é igual para todos. Afinal, uma hora tem 60 minutos, independentemente do tanto de tarefas que seu chefe pediu para concluir. “Agora, o modo como o percebemos, como nos temporalizamos, depende do contexto social e histórico”, explica o historiador.

Turin lembra que o próprio relógio é um instrumento que tem efeitos sociais. Apesar de ter sido inventado no século XIV, o relógio mecânico só se tornou um objeto central na organização social a partir da Revolução Industrial, quando o tempo passou a ser capitalizado como uma mercadoria. “Assim, o operário vendia o seu tempo para a fábrica. Com isso, foi criada uma relação estreita entre tempo e dinheiro”. Haja vista a frase de Benjamin Franklin: “Tempo é dinheiro”.

50 anos em 5

Nas sociedades contemporâneas, o bem-estar passou a ser medido em função do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), do aumento da produção, da inovação tecnológica. Com essa ideia de progresso, segundo Turin, a aceleração torna-se uma virtude. “Basta lembrar o famoso slogan de Juscelino Kubitschek, 50 anos em 5. Um pressuposto desse pensamento é de que quanto mais acelerarmos, mais rapidamente chegaremos em um estado de bem-estar pleno. Acontece que esse bem-estar sempre fica postergado como um futuro a ser realizado, enquanto o presente tem sempre que ser sacrificado”.

Assim, vive-se uma nova fase de aceleração e, ao mesmo tempo, uma crise na relação com o tempo, já que percebemos que a balança do bem-estar fica desequilibrada.

Repensar

Para Rodrigo Turin, precisamos repensar nossa relação com o tempo, lembrando, justamente, que essa é uma relação histórica e social, não natural. E foi isso o que percebeu a professora e mãe de Miguel (8) e Francisco (3), Michelle dos Prazeres, ao idealizar o movimento Desacelera SP, um coletivo que mobiliza pessoas a criarem uma cidade mais lenta. 

“Quando meu marido e eu engravidamos do Chico, entramos em uma rotina de começar a perceber os olhares tortos, quando permanecíamos sentados depois de consumir em um café, por exemplo”. Comprar de pequenos produtores e rever a própria forma de consumo empurrou o casal para uma rotina mais pé no freio.

E foi aí que surgiu a ideia de fazer um guia que mapeasse lugares onde fosse possível desacelerar. “São parques, livrarias onde o livreiro conversa, indica livros e oferece bolo e também marcas de slow food. Lugares ligados a uma vida mais simples”.

Para Michelle, é importante pensar sobre o quanto a agenda está sobrecarregada ou o quanto não se está aproveitando a vida, antes que isso se torne um problema ou quando não houver o que fazer. “Muitas pessoas só vão se preocupar com isso quando têm uma crise de estresse, desenvolvem burnout, sofrem um acidente ou depois da morte de alguém”.

Escapar da pressão pode ser um desafio

Desacelerar não é uma tarefa simples. Até porque envolve compromissos sociais. “Podemos individualmente buscar um equilíbrio, desenvolvendo uma disciplina para não se entregar completamente às demandas aceleradas. Mas há limites. Na medida em que a nossa sociedade é inteiramente organizada em função da aceleração, torna-se difícil escapar da pressão apenas individualmente”, considera Rodrigo Turin.

Michelle concorda, mas acredita que, na esfera micro, pequenas escolhas podem ajudar. “Fazer uma hortinha, entender que não é sempre que o celular apita que você precisa responder imediatamente. Pensar em como você está vivendo seus dias e estabelecer momentos de convivência plena com quem você ama”, aconselha.

Impactos

E pensar sobre tudo isso pode ser importante para a saúde. Segundo o médico e psicólogo Roberto Debski, o estresse provocado pela correria do dia a dia pode ser um gatilho para a manifestação de doenças que a pessoa já tem uma predisposição. “Pode ser o caso da hipertensão, diabetes. Pode influenciar também no sono e na libido, por exemplo”, explica Debski que tem pós-graduação em Atenção Primária à Saúde e formações em Práticas Integrativas e Complementares e Meditação.

Procurar terapias que auxiliem no gerenciamento das emoções e no equilíbrio pode ser uma alternativa. Mas pequenas ações diárias, conforme Debski, ajudam. “Tirar cinco minutos para respirar profundamente. Meditar 10 minutos diariamente. Ter um dia para passear com os filhos, namorado ou amigos e praticar um hobby. Ou parar para ouvir uma música e ler um livro. Encaixar isso no cotidiano pode fazer diferença”.