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Terça-feira

11 de Dezembro de 2018

Especialistas apontam aceleração da perda de surdez em jovens

Uso de fones de ouvido e som em casas noturnas favorecem o zumbido nos ouvidos de adolescentes

O uso diário de fones de ouvido para escutar música e frequentar ambientes muito barulhentos, como shows e casas noturnas, têm causado um aumento na prevalência de zumbido nos ouvidos de adolescentes, o que é considerado um sintoma de perda auditiva.

A constatação integra um estudo realizado por pesquisadores da Associação de Pesquisa Interdisciplinar e Divulgação do Zumbido (Apidiz), com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). “Constatamos que há uma prevalência muito alta em adolescentes de zumbido nos ouvidos, que é um primeiro sinal de alerta de risco para desenvolver perda de audição”, considera a coordenadora do estudo, Tanit Ganz Sanchez, professora de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

A situação é semelhante em outros locais do mundo. De acordo com o England’s Royal National Institute of Deaf, três em cada quatro frequentadores assíduos de boates estão sujeitos a desenvolver surdez precoce. Isso pode acontecer aos 35, 40, 50 ou 60 anos, dependendo da exposição dessa pessoa a tais ruídos, bem como a predisposição genética.

Estudo brasileiro

Os pesquisadores realizaram exames de ouvido (otoscopia) em 170 adolescentes na faixa de 11 a 17 anos, matriculados em um colégio particular tradicional de São Paulo, e solicitaram que respondessem a um questionário com perguntas sobre terem percebido o zumbido nos ouvidos ou não. Mais da metade desses adolescentes (54,7%) respondeu que tinha sentido zumbido nos ouvidos.

“A prevalência de zumbido nos ouvidos em adolescentes é alarmante. Havia a ideia de que zumbido nos ouvidos era um problema da terceira idade e estamos observando que tem se tornado mais prevalente em outros grupos etários, como crianças e adolescentes, pela exposição cada vez maior a níveis elevados de ruído, entre outros fatores”, conclui Tanit.

Os resultados dos testes revelaram que 28,8% dos adolescentes ouviram zumbido nos ouvidos dentro da cabine acústica em níveis comparados aos de adultos. “Os adolescentes têm sentido zumbido nos ouvidos com muita frequência, mas, diferentemente dos adultos, eles não se incomodam e não se queixam para os pais e professores. Com isso, deixam de contar com a ajuda médica e o problema pode se tornar crônico”, relata a professora.

Do total de 54,7% dos adolescentes que afirmaram ter sentido zumbido nos ouvidos, 51% disseram que perceberam o problema logo depois de usar fones de ouvido por muito tempo ou após sair de um ambiente muito barulhento, como o de uma casa noturna. “O zumbido nos ouvidos seria o primeiro sinal da lesão, aparecendo mais precocemente do que qualquer perda auditiva”.

Evolução

Muitas pessoas experimentam algum g<CW0>rau de perda auditiva a partir dos 40 anos por causa do envelhecimento natural do corpo, mas boa parte não admite a surdez.

“Trazer à tona o problema é a melhor coisa a se fazer. Familiares e amigos podem oferecer apoio importante. O tratamento da surdez, geralmente com aparelhos auditivos, resulta em melhoras significativas na qualidade de vida do indivíduo”, explica a fonoaudióloga Isabela Carvalho.

Influência urbana

O alerta de médicos e fonoaudiólogos é que a perda auditiva está começando a surgir cada vez mais cedo entre moradores de grandes cidades, em razão do excesso de barulho no dia a dia, seja nas ruas, em casa ou no ambiente de trabalho.

Segundo a fonoaudióloga Isabela Carvalho, é possível evitar esse problema. “Em uma sociedade na qual TV, rádio, aparelhos de som, jogos de videogame e fones ligados aos celulares fazem parte do dia a dia, as ameaças aos ouvidos estão em toda a parte”, afirma.

Para ela, o nível de ruído em casa tem grande impacto. “O barulho do secador de cabelos, do liquidificador e do aspirador de pó pode ultrapassar 90 decibéis. A exposição contínua a ruídos superiores a 85 decibéis pode causar perda progressiva da audição”.

Ela afirma que o trânsito é o grande vilão da poluição sonora. “O barulho afeta a saúde física e psicológica, gerando estresse, ansiedade e aumento da pressão. Quando o ruído é intenso e prolongado, pode causar também perda de audição. Uma das soluções mais baratas e inteligentes é usar protetores de ouvido”.

Isabela defende solução semelhante quando o jovem decidir reunir os amigos e passar uma noite em uma boate ou barzinho com música eletrônica. “Se o som alto nas baladas virar rotina, essa prática torna-se perigosa. Além dos frequentadores, os garçons, DJs, músicos, barmen e outros profissionais que trabalham expostos à música alta são vítimas de um mal que chega gradativamente: a perda de audição, que é progressiva e irreversível”.

Cultura da atenção

Assim que um bebê nasce, os pais sabem que é preciso fazer o teste do pezinho. Mas será que eles sabem também da importância do teste da orelhinha? Este é realizado para detectar problemas de audição. “É rápido, indolor, não fura a orelha do nenê e deve ser feito após as primeiras 24 horas de vida, na própria maternidade. Quanto mais cedo forem diagnosticados problemas auditivos e mais rápido for a intervenção, melhor será o prognóstico”.