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Domingo

20 de Outubro de 2019

Eletrônicos oferecem riscos a crianças

Estudo da ONU recomenda limitar o tempo que os menores de 4 anos ficam diante das telas de aparelhos como TV, celular e computador

A Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgou um estudo no qual faz um alerta e dá orientações para as famílias sobre os hábitos de bebês e crianças. O levantamento indica que, até os 2 anos, os bebês fiquem longe de telas de equipamentos eletrônicos.

O documento é um guia sobre atividades físicas, comportamento sedentário e sono para crianças com até 5 anos, desenvolvido por especialistas da própria OMS. Eles avaliaram, nas crianças, os efeitos do sono inadequado, do tempo passado em frente às telas ou o que acontece quando elas ficam em carrinhos de bebê e assentos. Além disso, avaliaram os benefícios do aumento dos níveis de atividade.

Em resumo, o estudo fala que as crianças devem passar mais tempo off-line, precisam brincar mais e ter um sono de qualidade, o que irá garantir hábitos saudáveis na infância e no futuro.

Os bebês menores de 1 ano não devem ter contato com televisão, celulares e vídeos ou jogos no computador. É importante fazerem interações que gerem movimento. Para os mais novinhos, que não se movimentam, os pais podem colocá-los no chão, de bruços (e acordados). Isso irá ajudá-los a fortalecer a musculatura do pescoço, por exemplo. Até os 3 meses, o ideal é que eles durmam entre 14h e 17h.

As telas de eletrônicos também estão vetadas para crianças de até 2 anos, conforme o documento. Nesse caso, já são recomendadas três horas de atividades físicas, que acontecem no próprio brincar, divididas ao longo do dia. O sono, incluindo as sonequinhas, deve ser de 11h a 14h. Para os maiorzinhos, acima de 2 anos, a OMS orienta até uma hora diante das telas. O ideal é que seja menos.

Para aquelas que têm entre 3 e 4 anos, o tempo sedentário perante uma tela também não deve ultrapassar uma hora, e quanto menos, melhor. Com mais energia, esses pequenos devem se movimentar por três horas, mas é bom que, em algum período, possam correr, pular, como as crianças gostam.

“Aumentar a atividade física, reduzir o tempo de sedentarismo e assegurar a qualidade do sono em crianças são cuidados que vão melhorar seus físicos, saúde mental e bem-estar e ajudar a prevenir a obesidade infantil e doenças associadas mais tarde em suas vidas”, disse Fiona Bull, integrante da equipe da OMS, em entrevista concedida para a Agência Brasil.

Pais reconhecem o desafio de mudar costumes

Em uma sociedade cada vez mais conectada, evitar as telas dos eletrônicos é difícil. Mãe de Heloísa, de 1 ano e 3 meses, Lidyane de Oliveira tentou, mas diz que não conseguiu.

“A pediatra dela deu inúmeras informações a respeito, só que para fazer uma comidinha ou algo em casa, eu a deixava 20, 30 minutinhos com alguma tela, dos 4 até uns 6, 7 meses”.

Depois disso, mais crescidinha, Heloísa queria mesmo era brincar e a mãe entrou no embalo. “Pensei que eu evitaria totalmente o uso dessas tecnologias, mas o cansaço de pedir sempre a mesma coisa para as pessoas do nosso convívio me venceu. Acredito que ela não passe nem uma hora por dia vendo vídeos, mesmo assim eu lamento, porque poderia ter conseguido esperar até os 2 aninhos”, conta Lidyane. 

Hoje, Heloísa vê um pouquinho de TV para a mãe conseguir preparar a comida ou colocar roupa para lavar. “Na maioria das vezes, a deixo com livrinhos, tampinhas de garrafa ou pregadores e brinquedos”.

Busca por alternativas

Rosa Maria Graziano, médica oftalmologista pediátrica e presidente do Departamento de Oftalmologia da Sociedade de Pediatria de São Paulo, afirma que estudos recentes alertam que as crianças deveriam resgatar alguns hábitos dos avós, quando o brincar ao ar livre era comum.

No entanto, a médica afirma que a atual sociedade é diferente. Os pais, por exemplo, precisam realizar tarefas on-line em casa. “Por outro lado, não se sentem seguros enviando as crianças sozinhas para os jardins próximos de casa e o lazer familiar nem sempre é frequente”, comenta. 

“Mas é importante a família estar ciente dessas questões e encontrar alternativas. Ao invés de oferecer o celular, pode apresentar um quebra-cabeça ou incentivar que os pequenos desenhem”, sugere.

Colocá-los para fazer lição de casa perto de uma janela aberta, com luz do sol, pode minimizar problemas. Um deles, a miopia. 

Segundo Rosa Maria, pesquisas mostram que crianças do interior são menos míopes do que aquelas que vivem em grandes centros urbanos. Ela explica que existem dois motivos principais para isso. O primeiro é que, passando mais tempo ao ar livre, as crianças do campo tomam mais sol e a retina libera dopamina, um neurotransmissor capaz de regular o desenvolvimento saudável do globo ocular. “Outra questão é que um tempo maior com as telas pode exigir um esforço acomodativo dos olhos, o que também favorece a miopia”, diz.

Dilema

As famílias, principalmente as mães que cuidam tanto dos bebês quanto da casa e, na maioria das vezes, trabalham, sabem o desafio que é afastar as crianças dos eletrônicos.

“Minha filha tem 1 ano e 5 meses e sabe ligar o celular e escolher o desenho. Creio que isso seja muito culpa minha, porque ela me vê no celular o dia todo”, admite Vanessa Araújo, mãe da Maria Luiza.

A questão é que ela trabalha com o celular. “É difícil não ficar com o aparelho perto da Maria Luiza, porque gerencio um restaurante e, quando não estou no local, fico coordenando tudo pelo meu celular”.

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