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Terça-feira

16 de Julho de 2019

Analgésicos em excesso podem causar mais dores do que soluções

Uso excessivo desse tipo de remédio põe paciente sob risco de lesões em órgãos e de contrair doenças crônicas

Se ao primeiro sinal de dor de cabeça, a sua reação é buscar um medicamento de marca famosa ou indicado por alguém para aliviar os sintomas, cuidado: o uso excessivo de analgésicos ou anti-inflamatórios pode transformar a indisposição simples em doença crônica. 

Especialistas alertam que doses elevadas e contínuas das fórmulas mais vendidas no País, como paracetamol e dipirona, aumentam o risco de lesões estomacais, danos hepáticos e renais.

Comuns nas prateleiras de farmácias e ao alcance das mãos dos consumidores, os inibidores de dor lideram as vendas de medicamentos no País, pois a maioria não requer prescrição médica.

Dados compilados pelo IMS Health, empresa norte-americana de informações estratégicas para o setor de saúde, indicam que três dos cinco remédios mais consumidos no Brasil são analgésicos. 

De acordo com o Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma), nos últimos 12 meses, o segmento movimentou cerca de R$ 3 bilhões, com 200 milhões de caixas produzidas.

Estimativas do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UNODC) citam que 0,5% da população brasileira usa analgésicos de maneira indiscriminada. 

Pandemia

A UNODC alerta para o que classificou de uma pandemia do consumo indiscriminado do remédio para dor, que parece inofensivo, mas pode causar outros males e agravar o problema original. Essa classe de medicamento bloqueia no cérebro os sinais de dores e inflamações. Leva-se de 30 minutos a uma hora para agir, e seu efeito dura por até quatro horas.Pandemia

“Os pacientes fazem uso dessa medicação sem nenhuma orientação médica e, em muitas vezes, nem sequer devidamente hidratados”, diz o membro do Conselho de Diálise da Sociedade Brasileira de Nefrologia e professor da Universidade Metropolitana de Santos (Unimes) Rubens Escobar Pires Lodi.
Pesquisas indicam que ao menos um em cada quatro brasileiros convive com dores constantes e não tratadas – cerca de 60 milhões de pessoas. Lodi explica que os remédios líderes de venda do segmento têm efeito paliativo: tratam o sintoma, não a causa. 

Ele afirma que a automedica-ção para inibir os efeitos pode aumentar a gravidade do quadro clínico. Também gerar efeitos colaterais, como reações alérgicas e lesões nos rins e no fígado. “Não há quem resista à dor por muito tempo, independentemente da intensidade. Quem faz uso desse medicamento se preocupa apenas em reduzir os sinais e pouco se atenta aos efeitos colaterais”, afirma Lodi.

Sem efeito

O coordenador do curso de Farmácia da Universidade Católica de Santos (UniSantos), Paulo Angelo Lorandi, cita que, após uma certa dosagem de remédio por tempo prolongado, ele deixa de ter o resultado esperado. Daí, para não sentir dor, o paciente ingere quantidades maiores da medicação, mas sem a mesma eficácia. Isso pode desencadear lesões estomacais, náuseas, vômitos e sangramentos.

“Nenhum medicamento é 100% seguro. Há sempre uma margem de risco, que é mensurada pelo médico na prescrição. Esse grupo (dipirona e o paracetamol) preocupa porque as pessoas acreditam que são de uso corriqueiro, mas é um engano”, afirma. Embora a dosagem mude para cada pessoa, especialistas dizem que menos de três gramas por dia é uma margem de segurança para o consumo de analgésicos.

Além de não combater a origem da dor, a ingestão frequente de medicamentos vendidos sem prescrição médica mascara sintomas de outras doenças. Estudo do departamento de Gastroenterologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) concluiu que 42% das pessoas que procuraram o pronto atendimento de seu hospital escola com dores de estômago, azia, vômitos, sangramento no intestino e lesões graves apresentavam estes sintomas devido à automedicação.