'É lamentável essa confusão entre política e ciência', diz o médico Fabio Mesquita

O profissional está agora em Mianmar, um país ao sul do continente asiático, e também não vê a hora de poder visitar o Brasil para rever a família

Médico infectologista, há anos trabalhando fora do Brasil a serviço da Organização Mundial de Saúde (OMS), Fabio Mesquita está agora em Mianmar, um país ao sul do continente asiático, e também não vê a hora de poder visitar o Brasil para rever a família. O médico santista, que trabalhou na Cidade até o final dos anos 90, diz acreditar que o embate político sobre a vacina contra a Covid-19, entre Estado de São Paulo e União, não afetará os protocolos de segurança das agências reguladoras, como a Anvisa. Confira a entrevista feita com ele, esta semana.

Clique aqui e assine A Tribuna por apenas R$ 1,90. Ganhe, na hora, acesso completo ao nosso Portal, dois meses de Globoplay grátis e, também, dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços!

A média móvel, divulgada diariamente, mostra que o número de contaminados cresce, mas o de mortes já não acompanha, é menor. Podemos interpretar esse fato como um momento em que as autoridades de saúde estão sabendo lidar melhor com a doença e, por isso, salvando mais vidas?

Acho que sim. A doença é muito nova, mas agora temos mais recursos do que se tinha tempos atrás. A doença tem três fases: viremia, onde os medicamentos antivirais tentam impedir a replicação do virus; depois entra na fase pulmonar, onde a falta de ar é o sintoma e as alternativas são respirador e anticoagulantes, porque a coagulação é intensa; e depois entra na fase severa, onde a solução é Dexametasona (um corticoide) funcionando como um potente antiinflamatório.

Quando se entendeu esse fluxo foi que as coisas começaram a melhorar.

Exato. Quando a gente entendeu isto e parou de pensar que só evitando a multiplicação do vírus resolveríamos o problema, melhorou muito nossa capacidade de responder melhor clinicamente aos casos. Também aprendemos como dar oxigênio, quais as quantidades. Essa explicação é a mais provável para essa relação de crescimento dos casos de contaminação para menos mortes.

Você acredita que em algum momento a contaminação pelo coronavírus entre em uma fase endêmica ou epidêmica? Mais quanto tempo de pandemia?

Veja, será ainda pandemia enquanto estiver atingindo o mundo todo ao mesmo tempo. Certamente até uma boa parte do ano que vem. O diferencial do ano que vem são as vacinas. Só elas são capazes de dar uma alteração importante na transmissão e na resposta imune da comunidade. 

Já se diz que, no primeiro momento, não haverá vacina para toda a população do Brasil e que, por isso, seria melhor priorizar os grupos de risco, como pessoal da saúde, idosos e pessoas doentes. O que você pensa sobre isso?

É isso mesmo, e temos que pensar que não é apenas o Brasil. São 7 bilhões de pessoas. Temos visto um progresso impressionante em curto espaço de tempo. Nunca produzimos uma vacina tão rápido. Temos 11 vacinas em diferentes estágios. A expectativa é de termos essas vacinas entre o final deste ano e o primeiro semestre de 2021. 

E por que não haveria para todo mundo?

O principal problema é a capacidade de produção. Como se produz bilhões de vacinas em seis meses? Então, ela precisa ser dividida pelo mundo todo com certa razoabilidade. Não é o que temos visto. Mais de 50% da produção dessas vacinas foi comprada por países ricos.

Ou seja, está se repetindo o que vimos com os respiradores: quem tem mais dinheiro compra toda a produção.

É exatamente o mesmo drama. Tem duas vacinas sendo testadas nos Estados Unidos, e o presidente já disse: ‘daqui não sai’. Embora existam outras linhas de produção com uma visão mais comunitária, não é possível dizer que o acesso será igual para todo mundo. 

Mas quem decide o que vai para onde? É só o poder econômico?

Poder político e poder econômico. 

Mas isso não pode criar um ‘abismo sanitário’ no mundo?

Certamente isso vai ser um problema. É o exemplo dos respiradores. Vai ser disputada mesmo. A OMS tomou uma iniciativa nesse sentido, para tentar minimizar isso, o que não quer dizer que todos vão seguir. Os Estados Unidos já cogitaram sair da OMS, e eu diria que o Trump não tem muito a intenção de estar numa posição coletiva. 

Qual foi a iniciativa da OMS?

Acesso aos instrumentos do covid-19. É uma congregação de forças para tentar resolver os problemas, que envolve ainda o Fundo Global de Luta contra Tuberculose, Aids e Malária, o Centro Global de Vacinação, e fundos internacionais. Essas organizações conseguiram colocar muito dinheiro, 35 milhões de dólares, para investir em vacinas, e elas serão mais democraticamente divididas pelo mundo, pelos países mais pobres inclusive.

Então será graças a essas iniciativas que comunidades e países mais pobres terão acesso às vacinas.

Essa é a expectativa. 

O governador de São Paulo, João Doria, disse que até final de abril de 2021 toda a população do Estado estará vacinada. Você acha isso possível?

Parece um uso completamente político. O que precisa ver é se o Butantan tem essa capacidade produtiva para vacinar todo o Estado de São Paulo em tão pouco tempo.

Com a politização da vacina, que já foi parar, inclusive, no STF, como confiar nos protocolos de segurança das agências reguladoras? É possível que os processos sofram ingerência política?

É muito lamentável essa confusão que está havendo entre política e ciência, entre eleições e desenvolvimento científico e tecnológico. É evidente que não é um fenômeno exclusivo do Brasil. A gente vê isso nos Estados Unidos também. Nossa expectativa é que nos próximos meses, tendo a vacina já aprovada, agências como Anvisa vão manter seu histórico de independência, que analisa sob o ponto de vista científico e toma decisões baseadas em evidências. Mas se acontecer de não ter essa neutralidade, podemos nos basear em outras agências, como a Agência Europeia de Medicamentos, ou o próprio FDA (agência federal, do Departamento de Saúde dos Estados Unidos) ou de outras agências regulatórias pelo mundo, que não serão influenciadas por um processo eleitoral. É uma pena ver esse processo nesse nível. A decisão sobre qual vacina tomar é para o futuro. Ainda não sabemos qual será mais efetiva e poderá impactar a disseminação da covid-19. Estamos tranquilos, porque ainda que haja alguma confusão na Anvisa, não vai impactar as decisões, porque existem outros parâmetros internacionais para tomada de decisões seguras em estados e municípios.

Se está sendo possível desenvolver uma vacina como essa em tempo recorde, por que para algumas doenças, como a aids, ainda não há?

Pelo que aprendi vivendo tantos anos fora e lidando com essas questões, está muito relacionado àquilo que ameaça os países poderosos ou não. Quem tem dinheiro para investir. É uma decisão de investimento. Ciência precisa de investimento. Investimento em ciência é uma prioridade política e econômica.

Mas o HIV não é uma prioridade, então?

Quando ele estava ameaçando os países ricos, o desenvolvimento tecnológico em medicamentos foi espetacular. Rapidamente, tivemos drogas incríveis. Os primeiros casos foram em 1982 e em 1989 já havia medicamentos de controle clínico, como o AZT. Isso foi muito rápido. Lembro que meus pacientes tomavam, no início, de 12 a 16 comprimidos por dia. Hoje, toma-se uma pílula por dia, sem efeito colateral. A comparação com o atual momento é o grau de ameaça. A covid é a maior ameaça que temos agora à vida, à economia, tudo que imaginamos relacionar desde a gripe espanhola. Só que, agora, a capacidade da ciência é incomparável. Mas nada estaria acontecendo sem dinheiro.

Tudo sobre: