Só em 2024, houve 6 mil óbitos por sinistros em vias paulistas (AdobeStock) O Plano de Segurança Viária de São Paulo (PSV-SP), apresentado pelo Governo do Estado no mês passado, ficará em consulta pública até o próximo dia 19, o que permite a qualquer cidadão enviar sugestões e críticas. O documento é o primeiro do tipo a ser elaborado e tem como meta reduzir pela metade as mortes no trânsito até 2030. O PSV-SP está disponível no site. Em 2024, houve 6.069 óbitos por sinistros de trânsito no Estado. Destes, cerca de 2,6 mil vítimas foram motociclistas. Os dados são do Infosiga, sistema estadual de monitoramento da violência do trânsito. O plano inicial contou com o apoio técnico de várias instituições, como o WRI Brasil, a Vital Strategies e a Iniciativa Bloomberg para a Segurança Viária Global, entidades parceiras do Detran-SP desde 2023, e do Global Road Safety Partnership. De acordo com o Detran-SP, as metas do documento, que tem cerca de 80 páginas, estão alinhadas ao Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito, elaborado em 2018, e à 2ª Década de Ação pela Segurança no Trânsito da Organização das Nações Unidas (ONU). De maneira geral, o plano tem a ambição de evitar 19 mil mortes até 2030 e continuar consolidando políticas de segurança viária até 2035. Ações articuladas “A meta é viável do ponto de vista técnico”, diz o CEO do Observatório Nacional de Segurança Viária, Paulo Guimarães — a entidade é organizadora do movimento Maio Amarelo. “Mas depende de ações articuladas, continuidade institucional, recursos adequados e, principalmente, de coragem política para enfrentar resistências históricas”, acrescenta. Irineu Gnecco Filho, diretor de projetos da Urucuia, especializada em mobilidade urbana, também enxerga as metas como possíveis. “Outros países conseguiram. Temos o exemplo de Helsinque, capital da Finlândia, que zerou o número de mortes no trânsito durante um período de 12 meses entre 2024 e 2025”, afirma. Entretanto, na visão de Gnecco Filho, é fundamental que todas as ações ocorram de forma simultânea. “É necessário reduzir velocidades dos veículos, melhorar a infraestrutura, redesenhando as vias, e priorizar o transporte coletivo e a mobilidade ativa (pedestres e ciclistas). Além disso, fiscalizar de forma consistente e investir em campanhas de conscientização”, diz. Acertos Entre os pontos positivos do plano, Guimarães destaca a estrutura técnica robusta, construída com base em dados e evidências. “O documento também prevê integração entre órgãos estaduais e apoio técnico aos municípios, além de priorizar ações voltadas aos usuários mais vulneráveis, como pedestres, ciclistas e motociclistas”, afirma. A importância da articulação entre diversos órgãos também foi destacada por Gnecco Filho. “O documento estabelece metas claras, alinhadas ao Pnatrans, e propõe ações integradas entre DER, Artesp, Polícia Rodoviária e Secretaria de Estado da Saúde. Seu maior mérito é colocar a segurança viária como prioridade de governo, algo que nem sempre aconteceu no passado. Destaco, ainda, a coragem de colocar a questão da velocidade no centro da discussão”, acrescenta o diretor da Urucuia. Embora elogiem a maneira como o plano foi feito, os especialistas dizem que há obstáculos importantes a superar. Para Gnecco Filho, “o desafio não é fazer o plano, e sim colocá-lo em pé. Como ele é muito estratégico, precisa de um cronograma mais detalhado, recursos garantidos e metas intermediárias para acompanhamento. E tem a questão da integração com os municípios”. Outro ponto sensível, de acordo com Guimarães, é a resistência política e social frente a mudanças como a redução de limites de velocidade. “Muitas vezes esse tema é tratado de forma ideológica, e não técnica”, destaca Guimarães. “A superação desses obstáculos exigirá uma comunicação clara com a sociedade e a valorização de uma cultura de prevenção. Por isso, a participação social se torna um eixo central para o sucesso do plano de segurança viária”.