O Brasil ocupa a segunda posição no ranking mundial de buscas por Mounjaro e Ozempic, medicamentos indicados para diabetes tipo 2 e que também vêm sendo utilizados, muitas vezes de forma inadequada, para emagrecimento. O levantamento foi feito com base em dados do Google Trends e reflete o crescimento acelerado do interesse da população em torno dos fármacos que se tornaram conhecidos como “injeções para perder peso”. Nos últimos dois anos, a procura online por informações sobre esses remédios disparou, colocando o Brasil atrás apenas dos Estados Unidos. Isso revela não apenas o alcance global da tendência, mas também a preocupação de milhões de brasileiros com o controle da obesidade, que já é considerada um dos maiores problemas de saúde pública do país. O que são Mounjaro e Ozempic? O Ozempic, cujo princípio ativo é a semaglutida, e o Mounjaro, à base de tirzepatida, foram desenvolvidos originalmente para ajudar no controle da glicemia em pacientes com diabetes tipo 2. Eles pertencem a uma classe de medicamentos conhecidos como agonistas do GLP-1, que atuam simulando um hormônio natural do corpo, reduzindo o apetite e aumentando a sensação de saciedade. Com esses efeitos, passaram a ser prescritos também como aliados no tratamento da obesidade, o que impulsionou sua popularidade no Brasil e em vários outros países. Um mercado bilionário Segundo consultorias internacionais, o mercado global dos medicamentos para emagrecimento à base de GLP-1 deve movimentar mais de US\$ 100 bilhões até 2030. No Brasil, o setor farmacêutico já sente os reflexos: clínicas especializadas registram alta na procura, e farmácias relatam queixas constantes de falta de estoque. Essa explosão de interesse também levanta debates sobre desigualdade de acesso, já que os preços podem ultrapassar R\$ 1 mil por caixa, inviabilizando o uso contínuo para grande parte da população. Riscos do uso indiscriminado Médicos e sociedades de endocrinologia reforçam que o uso de Ozempic e Mounjaro deve ser feito apenas com prescrição e acompanhamento médico. Entre os efeitos colaterais mais relatados estão náuseas, diarreia, constipação e vômitos. Em casos mais graves, podem ocorrer inflamações no pâncreas e complicações gastrointestinais. Esses medicamentos não são milagrosos. Têm grande potencial, mas precisam ser avaliados caso a caso, especialmente porque exigem ajustes na dose e monitoramento de possíveis efeitos adversos, segundo especialistas. Fatores que impulsionam as buscas no Brasil Especialistas apontam alguns motivos para o Brasil ocupar o topo da lista de pesquisas: Alta prevalência de obesidade e sobrepeso – segundo o Ministério da Saúde, mais de 55% da população adulta brasileira está acima do peso; Grande repercussão midiática – celebridades e influenciadores digitais divulgaram o uso dos medicamentos para emagrecer; Fácil acesso a informações pela internet, muitas vezes sem checagem; Oferta no mercado paralelo, que preocupa autoridades sanitárias. O papel da Anvisa e os próximos passos A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já autorizou tanto o Ozempic quanto o Mounjaro para o tratamento de diabetes tipo 2 no Brasil. No entanto, ainda não há aprovação oficial para uso exclusivo em emagrecimento. Estão em andamento estudos clínicos que podem expandir a bula para tratar obesidade, mas, até lá, médicos alertam que o uso “off label” — quando a medicação é prescrita para finalidades não registradas em bula — deve ser cercado de cautela. O que esperar daqui para frente Com o crescimento da obesidade e o forte apelo por alternativas eficazes de tratamento, a tendência é que as buscas por medicamentos como Ozempic e Mounjaro continuem altas no Brasil. A expectativa do setor é de que novos concorrentes cheguem ao mercado, ampliando as opções e, possivelmente, reduzindo os preços. Para especialistas, a popularidade deve servir de alerta: a luta contra a obesidade vai além de remédios e passa por políticas públicas, acesso a alimentação saudável, incentivo à prática de exercícios e acompanhamento multidisciplinar.