Pesquisa diz que para 73% das meninas, violência de gênero é a maior barreira para a igualdade

Elas também destacaram que a pandemia de Covid-19 colocou imensa pressão sobre elas, sobretudo com o fechamento das escolas

A violência de gênero é a maior barreira enfrentada pelas mulheres. É o que aponta uma pesquisa realizada pela Plan International, organização humanitária que se dedica a garantir os direitos e promover o protagonismo das crianças, adolescentes e jovens, especialmente das meninas. Para 73% das entrevistadas, a agressão é entrave para a igualdade.

O estudo foi realizado no contexto da Declaração e Plataforma de Ação de Pequim, da Organização das Nações Unidas (ONU), que em 1995 estabeleceu uma agenda abrangente e visionária para os direitos das mulheres e a igualdade de gênero. Este ano, a declaração completa 25 anos. O estudo vai apoiar as meninas a elencar as questões-chave que elas desejavam ver abordadas nos eventos da comemoração do 25º aniversário da Declaração de Pequim, que foram adiados para 2021.  

No primeiro semestre do ano, o estudo ouviu 1.147 meninas com idades entre 14 e 19 anos. Elas responderam a um questionário on-line e 350 delas participaram de uma pesquisa qualitativa mais profunda.  

As meninas se debruçaram sobre as 12 áreas delineadas pela Declaração de Pequim para considerar quais são as mais críticas atualmente. Em todos os países, 70% das meninas apontaram que a violência contra meninas e mulheres é a principal questão, seguidas de pobreza (42%), poder e tomada de decisão (36%), educação e treinamentos (32%), infância das meninas (28%), saúde (25%), direitos humanos (23%) e economia (23%). 

Gênero  

O estudo aprofundou a percepção das meninas sobre a violência baseada em gênero. Três a cada quatro meninas (73%) apontam que esta é a questão de prioridade máxima, especialmente para as que vivem em áreas rurais. “Um sentimento comum entre elas é o de que a menos que a violência e o abuso cometido contra elas sejam resolvidos, o progresso em outras áreas fica prejudicado”, cita a publicação. 

As meninas disseram que a situação estava piorando com a pandemia de Covid-19, já que as necessárias medidas de isolamento social acabaram colocando as meninas em risco de violência doméstica e permitindo que os agressores fugissem da justiça.  

“Nada sobre as meninas, sem as meninas. Este é o pedido daquelas que participaram da pesquisa representando seus países, bem como as demais meninas no mundo todo. Entre as prioridades elencadas, elas colocaram a violência baseada em gênero como primeira, ressaltando que o acesso delas à justiça e proteção é insuficiente e precisa ser aprimorado. Sabemos que o primeiro passo é falarmos sobre este tema, trazermos para conhecimento e consciência de todos e todas a questão sobre insegurança e a impunidade em nosso país, compartilhando a responsabilidade em cuidar destas crianças”, afirma Cynthia Betti, diretora-executiva da Plan International Brasil.  

Na pesquisa, as meninas descreveram a violência como algo inevitável em suas vidas diárias em casa, na escola, nas ruas e nos transportes públicos. As entrevistadas acreditam que a violência de gênero é algo que predetermina alguns resultados na vida de meninas adolescentes.  

“Não podemos aceitar que continuemos ocupando posições em destaque nos rankings como casamento infantil, exploração sexual, abuso sexual e feminicídio. Temos que escutar o que as meninas têm a dizer e criar condições para mudar esta realidade, junto com elas”, ressalta Cynthia.  

A pesquisa aponta que entre os tipos de violência que as meninas já sofreram ou conhecem casos de outras meninas estão a violência sexual (83%), violência doméstica (75%), gravidez precoce (66%), casamento infantil (66%), assédio em público (66%), feminicídio (50%), exploração sexual (41%), violência psicológica (33%) e assédio on-line (33%).  

“Já não sei mais quantas oportunidades perdi ao perceber o risco de violência de gênero. Devo me preocupar com o horário de voltar, porque o medo de ser violentada é maior que qualquer coisa. Não falo só por mim, mas por várias meninas que se sentem reprimidas dentro e fora de casa. Minha vida gira em torno dessa violência. Quando saio, não me preocupo somente com a roupa que me deixa satisfeita. Devo pensar em uma roupa que não sirva de justificativa (e não é) para olhares maldosos, palavras e gestos obscenos, diz Bruna, de 19 anos, participante de projetos da Plan International Brasil, em São Luís, no Maranhão. 

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