Conexão Japão: Opinião pública reage ao infanticídio

Um bebê foi encontrado sem vida no parque público Sumizaki, dentro de um saco plástico, entre arbustos

Alguns dias após o mundo inteiro chocar-se com a forma fria com que o policial Derek Chauvin sufucou o afrodescendente George Floyd, após denúncia de extelionato, na cidade de Minneapolis, o Japão foi surpreendido com um crime igualmente bárbaro, cometido por uma mãe contra seu filho recém-nascido, na cidade de Nishio, província de Aichi, na região central do Japão.

Com problemas relacionados à baixa natalidade, como a escassez de força de trabalho, o aumento da população de idade avançada e o colapso do sistema previdenciário, a sociedade japonesa se indignou com o incidente ocorrido na manhã da última terça-feira, dia 2 de junho, no parque público Sumizaki, onde um bebê foi encontrado sem vida, dentro de um saco plástico, entre arbustos. 

Segundo o noticiário local, às 8:40 da manhã, um transeunte ouviu um ruído vindo do banheiro do parque, que se assemelhava ao miado de um gato. Dez minutos depois, um funcionário da prefeitura  chega ao local e, por não ouvir nenhum barulho, retira-se, reportando que “a porta do banheiro público estava fechada, o que indica que a facilidade estava em uso”. A identidade do assistente social está sendo preservada. Após o horário de almoço, o funcionário é novamente encaminhado ao local. Desta vez, o banheiro está tingido de sangue e o corpo do recém-nascido é identificado entre as plantas ornamentais do parque.

Drones sobrevoam o parque, que agora está cercado por carros de polícia e dos bombeiros. Alguns moradores são entrevistados, mas as informações são escassas, numa versão nipônica do “ninguém sabe e ninguém viu”. O assunto ganha destaque no Twitter, uma ferramenta importante da democracia na sociedade japonesa.

No dia seguinte, quarta-feira, após grande reação da opinião pública, a imprensa divulga a informação de que a mãe que perpetuou o infanticídio é uma estudante universitária japonesa de 20 anos, que está internada num hospital da região. Todos aguardam seu depoimento. 

Entre a juventude japonesa, há um consenso não-oficial sobre ter filhos: sua criação custa caro e é um grande estorvo. Além disso, atrás da imagem austera, o Japão mantém há séculos uma resistente indústria de entretenimento adulto. Sabendo disso, organizações sem fins lucrativos (NPO) como a Baby Life, foram criadas para procurar pais adotivos e solucionar o problema da gravidez indesejada. 

No passado feudal do arquipélago, o infanticídio foi muito praticado, principalmente em regiões menos prósperas, como uma forma de controle populacional. A prática era chamada “mabiki”, que significa “livrar-se” de algo. Ao contrário do que acontece na Índia e no Oriente Médio, o sexo masculino não era poupado. Um bebê do sexo feminino significava um investimento para a família camponesa, que poderia lucrar com um “omiyai”, casamento arranjado, vendê-la como uma serva em casa de família rica ou mesmo, torná-la prostituta, ou “geisha”, uma profissional do entretenimento. 

No período Edo (1603-1868), cerca de 60 mil casos de “mabiki” eram praticados anualmente, relata o jornal The Times, na edição de 8 de Dezembro de 1973.

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