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Segunda-feira

10 de Agosto de 2020

Conexão Japão: Assepsia, necessidades e cultura

A maior responsável pelo êxito na luta contra o vírus letal e desconhecido foi, de fato, a cultura milenar, que preza polidez e higiene impecável no tratamento entre as pessoas e dentro de casa

Há duas semanas, o Japão era elogiado mundo afora por ter controlado a epidemia de coronavírus sem confinamento. Empresas e escolas seguiram a orientação do governo, estendendo o feriado prolongado por duas semanas. Nesta golden week, os cidadãos evitaram viagens domésticas e ao exterior. Poucos carros circulavam nas ruas. Lojas de portas fechadas. A disciplina do povo cumpriu papel importante. Mas a maior responsável pelo êxito na luta contra o vírus letal e desconhecido foi, de fato, a cultura milenar, que preza polidez e higiene impecável no tratamento entre as pessoas e dentro de casa.

Ao invés de um abraço ou um aperto de mão, uma comedida reverência, inclinando-se ao interlocutor. Além de respeitosa, a forma como os japoneses se despedem ou agradecem entre si evita o contato físico. Sapatos são deixados na entrada das casas. Guetá, uma sandália de madeira, que mantém os pés longe do solo foi o calçado popular por séculos. A forma correta de sentar-se para uma reunião, com os joelhos sobre uma almofada, também entra nesta lista de bons costumes, todos surgidos da necessidade de evitar a disseminação de doenças.

Desde tempos remotos, a intensa troca cultural com o continente proporcionou a assimilação de hábitos cuidadosamente escolhidos, depurados, nacionalizados e difundidos em todos os cantos do arquipélago. O Japão era parte da sinosfera, área sob influência da cultura chinesa, da qual faziam parte também a Coreia e o Sudeste asiático. Se hoje a China é considerada um país com déficit em limpeza, no passado ela já foi referência para seus vizinhos. Cada país da Ásia têm cultura própria, mas em menor ou maior escala, foram influenciados pelas melhores práticas da antiga civilização, principalmente durante a dinastia Zhou (1046-264 A.C.), quando a cultura floresceu na China, e depois, na dinastia Ming (1368-1644), o auge da arquitetura, tecnologia, gastronomia e comércio com a Europa.

Na Idade Média, a preocupação com doenças era extrema. Assim surgiram hábitos que levavam em conta o mundo microscópico, que apesar de desconhecido, nunca foi ignorado. Além dos exemplo citados, a lista de hábitos higiênicos praticados pelo japoneses é longa.

Há quem critique a extrema assepsia das embalagens de alimentos da era contemporânea, ironicamente com o argumento de que baixa a capacidade imunológica dos seres humanos. Na verdade, é para evitar perigos invisíveis, como coronavírus, hepatite, gripe e influenza.

Porém, nem mesmo o medo da morte, o respeito pela sociedade, nem a cultura milenar conseguiram conter a epidemia por completo. Na última quarta-feira, dia 17, a capital Tóquio registrou 48 novos casos da covid 19 na região metropolitana, que compreende 23 distritos. Um a mais que na segunda-feira, quando a cidade teve 47 casos, conforme o jornal Japan Times.

De acordo com a reportagem do diário em língua inglesa mais antigo do Japão, esse surto teve início em clubes noturnos, transformando o distrito de entretenimento adulto de Kabukicho em um cluster que pode levar a capital japonesa a uma segunda onda de coronavírus. 

Até então, o governo estava contando com a cooperação dos cidadãos. Mas, após o maior número de casos registrados na cidade desde maio, o primeiro-ministro Shinzo Abe cogitou a possibilidade de punição para quem desobedecer as orientações, reportou o jornal Mainichi Shimbun. Este tipo de imposição foi severamente evitada até o momento, pois remonta a década de 1940 e ao estado policial em que se transformara a capital nos anos críticos da guerra no Oriente.

 

Sobre o autor

Yukio Spinosa é jornalista, intérprete, tradutor e consultor para prospecção de produtos da Indústria Japonesa.

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