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Quinta-feira

13 de Agosto de 2020

Conexão Japão: A política do isolamento da China

Governo do Japão propõe uma economia de menor dependência do país vizinho

Era uma tarde de inverno em Tóquio, no ano de 2012. Figura pública no Japão, o afamado conservador Makoto Sakurai discursa para um auditório entusiasmado. O atual primeiro-ministro Shinzo Abe, do Partido Liberal Democrata, acabava de ser eleito para o primeiro termo, após ter de deixar o cargo por motivos de saúde.

Substitui o líder da oposição, o Partido Social Democrata, que deixava o poder após três anos no governo. Entre elucubrações e piadas preconceituosas, uma total ruptura com a China é citada, ainda que un passant, um desejo óbvio da extrema direita nacionalista do Japão.

A conversa era fruto das manifestações ocorridas na China no ano de 2010, quando todas as principais cidades chinesas tiveram passeatas anti-Japão, organizadas pelo Exército de Libertação do Povo, o PLA, como são chamadas as forças armadas daquele país. Era o auge da disputa sobre as Ilhas Senkaku, entre Okinawa e Taiwan, no Oceano Pacífico. 

Passados anos após tais acontecimentos, no pico desta pandemia da nova mutação do coronovírus, o governo do Japão propõe uma economia de menor dependência do país vizinho, para que a nação seja menos vulnerável à interrupções de suprimentos de insumos e produtos básicos.

No maior país do continente asiático, há um amplo espectro de opiniões sobre essa tendência já adotada pelo Japão, e que encontra simpatizantes ao redor do mundo. Porém, a posição mais alinhada com o seu governo é afirmar que “os EUA e o Japão querem impedir o desenvolvimento da China”.

A fabricante de cosméticos e produtos de saúde Iris Ohyama é a primeira empresa a aceitar a ajuda financeira do governo para tirar suas linhas de produção do país onde surgiu o coronavírus, como parte da política “shift away from China” (mude-se da China). Entre seus produtos, estão as máscaras faciais, item de primeira necessidade no Japão atualmente.

No auge da guerra comercial entre China e Estados Unidos, empresas como Amazon, Dell, Hewlett Packard e Microsoft juntaram-se ao êxodo de fabricantes de produtos eletrônicos, que agora deixa o parque industrial chinês. “Agora não é mais culpa de Donald Trump. É o coronavírus chacolhando tudo”, afirma o colaborador sênior da revista Forbes Kenneth Rapoza. 

O Japão anunciou, no dia 13 de abril, que vai destinar mais de US$ 2 bilhões para ajudar suas firmas a retornarem ao país ou moverem a produção para nações do sudeste asiático. A medida de alto custo e de difícil implementação é tomada simultaneamente por corporações americanas e japonesas.

Durante décadas, a China conseguiu industrializar-se e tornar-se um centro de manufatura graças à presença, ao know-how e à transferência de tecnologia de especialistas do mundo inteiro. Agora, o modelo de globalização está mudando e o país que almejava ser totalmente industrializado no ano de 2050, agora deve repensar suas estratégias.

A nova posição do Japão surge após o líder do partido comunista e presidente da China, Xi Jing Ping (pronuncia-se Zi Jinping), ter seu encontro com o premiê japonês adiado pela crise da pandemia. Xi chegou a declarar que este seria o início de uma nova era nas relações sino-japonesas.

Para Katsuji Nakazawa, do Nikkei Asian Review, o setor de negócios da segunda maior economia do mundo entende que a decisão de deixar a China é uma medida de segurança nacional do Japão, para proteger suas supply chains. Mas, a história ganha conotação e significado diferente, dependendo de quem a conta e de quem a ouve.

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