EDIÇÃO DIGITAL

Segunda-feira

9 de Dezembro de 2019

Conexão Itália: Nem tudo são flores no mais belo dos países

País tem permanecido em constante agonia política, e poucos de seus governos acabaram por se mostrar dignos de um destaque positivo

Passei os últimos 15 dias na Itália, na bela e encantadora Itália. Sem intenção especial de desmerecer qualquer país, costumo dizer que existe a Itália. E existe o resto do universo. Muitos países têm encantos particulares, mas nenhum os tem em tanta quantidade. Mesmo que não fosse descendente de lá, teria pela Itália um amor absoluto. História, arquitetura, belas artes, gastronomia, design, senso estético: tudo isso há em abundância e inimitável proporção.

Mas nem tudo são flores no mais belo dos países. Desde o golpe republicano que sucedeu à desordem instaurada no fim da Segunda Guerra Mundial, o país tem permanecido em constante agonia política, e poucos de seus governos acabaram por se mostrar dignos de um destaque positivo. No entanto, isso não o impede de apresentar excelentes índices de desenvolvimento humano, pertencer ao primeiro mundo e fazer parte do bloco dos sete mais ricos. Quer parecer um milagre, não?

A resposta para isso talvez resida na força da sociedade civil, no poder das indústrias e na consciência viva das glórias do passado. Sou realmente tentado a pensar que tudo isso acaba compensando a qualidade duvidosa de sua classe política e seus muitos erros administrativos. Visitei quatro das suas regiões mais ricas e importantes: Lazio, Toscana, Veneto e Lombardia, o que conferiu um pouco de solidez a essa impressão.

Desde 2007, tenho ido anualmente a Roma. E a cada ano venho notando uma queda vertiginosa em organização e limpeza. A presença de estrangeiros ilegais e francamente hostis à cultura local tem sido também cada vez maior. Não há real violência na cidade. Mas incidentes desagradáveis, como pequenos furtos, têm obtido um considerável aumento.

Mas tão ou mais preocupantes que os desacertos políticos são os ataques que lhe fazem certas ideologias. Somam-se à ilegalidade estrangeira, hostil à cultura cristã e ao modo de vida italiano, muitos jovens locais, que acabam por mergulhar de cabeça no submundo das drogas. Uma legião de rapazes perdidos, distantes de boas referências, da tradição, da fé dos seus avós, descompromissados com sua própria identidade, com o próprio ser, andróginos na aparência, no sexo, na cultura, na vida, levados por ideologias como folha seca pela brisa do outono. 

De fato, a Itália não está livre da reengenharia social. Claro que nada diminuirá a beleza desse país, em cuja capital ficou um dia o berço de um dos maiores impérios do mundo e onde o próprio Deus decidiu fincar as bases de Sua Igreja. Contudo, sem um arranjo interno, sem a urgência na solução que o problema requer, o país corre o risco claro de simplesmente virar alguma coisa estranha. E assim deixar de ser Itália.

Sobre o autor

Paulo Henrique Cremoneze é advogado e escreve na coluna Conexão quinzenalmente aos sábados.

Tudo sobre: