EDIÇÃO DIGITAL

Sábado

23 de Março de 2019

Conexão Austrália: Carnaval e causa gay

Nesta edição da coluna, Fabiana Marinelo fala sobre os australianos saberem reconhecer o valor do dólar rosa

Na mesma semana do carnaval do Brasil, Sydney celebrou o seu localmente. Aqui, causa gay e festa popular caminham juntas, virando uma mistura de carnaval e parada gay. Para se ter uma ideia, o nome do evento é Sydney Gay and Lesbian Mardi Gras (que, de forma simplista, significa em francês a celebração da terça-feira gorda, o carnaval).

Não há como comparar com os números, o tamanho e o impacto do evento local com o que ocorre no Brasil, mas a Austrália tem tirado proveito da festa, que traz enorme retorno financeiro para o estado de NSW, onde a cidade de Sydney está localizada. Dias depois da sua realização, o Mardi Gras ainda é assunto, com notícias pós-evento, fotos de famosos e repercussão dos valores trazidos à economia local pelo chamado “dólar rosa”.

O Sydney Mardi Gras começou há 40 anos como uma forma de protesto pela causa gay. Cerca de 500 ativistas saíram às ruas para manifestar pelos seus direitos. A passeada acabou em violência e prisão de pelo menos 50 deles. No ano seguinte, o evento se repetiu e assim fizeram até os dias de hoje. A antiga passeada transformou-se em uma parada com mais de 200 carros alegóricos, cerca de 15 mil participantes, além de cerca de 300 mil espectadores, sendo quase 10 mil estrangeiros. 

Além da parada, que realmente para a cidade, o Mardi Gras acontece durante duas semanas e envolve a realização de workshops, exposições de arte, discussões sobre a causa LGBTI. 

Os participantes do evento gastaram cerca de AU$ 31 milhões em 2018. Aqui também há quem defenda que o governo não deve investir na festa, mas a geração de emprego e o retorno financeiro provam o contrário. Entre 2009 e 2017, o governo de NSW lucrou mais de AU$ 265 milhões com o carnaval.

E a tendência é de crescimento. A festa, que começou tímida e com medo de represálias, hoje é um importante evento do calendário local e movimenta a cidade semanas antes e após a sua realização. Grandes marcas, artistas e a comunidade se juntam em nome de uma única causa. As ruas são tomadas de famílias gays e não-gays, casais gays e simpatizantes. 

O sucesso do Carnaval LGBTI deve-se não apenas ao retorno financeiro, mas também aos incansáveis esforços dos ativistas dos direitos gays. A festa é o ápice de um movimento concreto, que faz a Austrália ser um país à frente em direitos da comunidade LGBTI, como o casamento gay e a mudança de sexo. Não há dúvida que o chamado “dólar rosa” veio para ficar.