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Quarta-feira

11 de Dezembro de 2019

Conexão Argentina: Derrota nas primárias sinaliza fim da era Macri

'A leitura que se faz após a divulgação dos resultados das eleições primárias é que o país deverá mesmo optar pelo retorno da esquerda ao poder' - Samuel Rodrigues

Os argentinos rejeitaram nas urnas o modelo de governo atual e impuseram uma dura derrota ao atual presidente, Mauricio Macri. A leitura que se faz após a divulgação dos resultados das eleições primárias, na noite de domingo (11), é que o país deverá mesmo optar pelo retorno da esquerda ao poder com a chapa Frente de Todos, de Alberto Fernández/Cristina Fernández de Kirchner, nas eleições de outubro.

Se repetir em dois meses o resultado do fim de semana, quando alcançou 47% dos votos, 15 pontos percentuais a mais que o candidato à reeleição, a fórmula Fernández/Fernández chegará à presidência em outubro. Aliás, segundo as regras eleitorais da Argentina, basta assegurar 45% dos votos para vencer no primeiro turno.

Macri reuniu seu gabinete já no domingo à noite para traçar estratégias para reverter o resultado, após reconhecer que havia sido “uma eleição ruim”. Especularam-se mudanças ministeriais, em um primeiro momento descartadas pela cúpula do governo. Parte da culpa pelo fracasso é atribuída ao líder da campanha, o chefe de gabinete de Macri, Marcos Peña.

A surra que Macri levou nas urnas pode ser explicada basicamente pela falta de boas notícias no campo econômico em quase quatro anos de governo. Em sua gestão, a pobreza, o desemprego e a inflação aumentaram enquanto a economia encolheu. De quebra, o dólar disparou e o país precisou recorrer a um empréstimo bilionário do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Cansados das sucessivas denúncias de corrupção durante os 12 anos de kirchnerismo no poder, os argentinos deram amplo apoio a Macri nos dois primeiros anos de governo, apesar das medidas impopulares adotadas logo no começo do mandato. Entre elas, a retirada de subsídios do transporte público e das contas de gás e luz, que encareceram os boletos em mais de 1.000% em um primeiro momento.

Depois da lua de mel, o casamento de Macri com seu eleitorado começou a azedar, em parte, devido ao descumprimento de promessas de campanha. Ele havia dito que acabaria com a pobreza, que seria “muito fácil” frear a inflação, que o país voltaria a crescer rapidamente e que atrairia uma “chuva de investimentos” do exterior. Nada disso se concretizou. Muitos que o apoiavam se sentiram traídos.

O desempenho de Macri na eleição foi tão ruim que contaminou o da governadora da província de Buenos Aires, María Eugenia Vidal. Antes favoritíssima, e inclusive cotada para a presidência daqui a quatro anos, agora ela corre sério risco de perder para Axel Kicillof, ex-ministro da Economia de Cristina Kirchner. A área da província, no entorno da capital federal, abriga o maior colégio eleitoral do país.

A rejeição a Cristina Kirchner ainda pode fazer muita gente votar em Macri por considerá-lo o pior dos males, mas a derrota dele é dada como certa pela imprensa e pelos analistas. Pesam contra Cristina denúncias de corrupção. Mas como ela é senadora atualmente, o poder de investigá-la é limitado pelo foro privilegiado.

Nesta segunda (12), Macri partiu para o ataque afirmando que “a alternativa kirchnerista não tem credibilidade”. Depois, adotou o discurso do medo, afirmando que “o mundo vê isto como o fim da Argentina”. Ao longo da segunda-feira, as ações das empresas argentinas despencaram e o dólar subiu 23%, fechando o dia a 57,30 pesos. Macri não telefonou ao adversário para parabenizá-lo pela vitória, um sinal da profunda divisão política do país, e certamente endurecerá o discurso nos próximos meses. Até outubro, muita água vai rolar. O barco não deve afundar ainda, mas eu não me arriscaria a tirar o colete salva-vidas.

Sobre o autor

Samuel Rodrigues é jornalista e tradutor. Ele escreve na coluna conexão quinzenalmente, às terças-feiras.

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