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Terça-feira

19 de Março de 2019

Autor de ataque a mesquitas queria vingar menina sueca vítima de jihadistas

Atirador fez afirmação em manifesto; mãe da garota repudiou ação

A mãe de uma menina sueca morta em um ataque jihadista em 2017 condenou, nesta sexta-feira (15), o ataque às mesquitas na Nova Zelândia por um atirador que afirmou, em seu manifesto racista, que ele queria vingar a morte de sua filha. O ataque a duas mesquitas nesta sexta-feira na cidade de Christchurch, na Nova Zelândia, "vai contra tudo o que Ebba defendia", declarou Jeannette Åkerlund, à TV pública SVT.

"Ela espalhava atenção e amor a seu redor, não o ódio. Estou sofrendo com as famílias afetadas e condeno todas as formas de violência", acrescentou.

Ebba Åkerlund, 11 anos, morreu no dia 7 de abril de 2017, quando foi atropelada por um caminhão em uma rua comercial de Estocolmo, por Rakhmat Akilov, um imigrante do Uzbequistão.

O atirador australiano preso após o ataque a mesquitas na Nova Zelândia publicou um manifesto racista no Twitter no qual ele escreveu que queria "vingar Ebba Åkerlund". Ele também escreveu o nome da menina em uma das armas usadas no massacre que matou pelo menos 49 pessoas.

A morte de Ebba abalou a Suécia. A menina foi morta ao sair da escola e a caminho de encontrar a mãe no centro de Estocolmo. Tinha acabado de enviar uma mensagem pedindo que a mãe comprasse um sorvete para ela.

Seu túmulo, em um cemitério na capital sueca, é regularmente profanado por um homem de nacionalidade estrangeira que aguarda julgamento.

O autor do atentado de Estocolmo foi condenado à prisão perpétua em junho de 2018.  Antes do ataque, que matou cinco pessoas no total, ele prometeu fidelidade ao grupo Estado Islâmico (EI).

Atirador filmou e postou manifesto

O atirador australiano autor dos ataques contra mesquitas neozelandesas, além de transmitir ao vivo a ação mortífera, também postou um manifesto racista no Twitter, segundo análise realizada pela AFP. A polícia pediu às pessoas para não compartilharem as imagens, nas quais o agressor pode ser visto disparando à queima-roupa.

"A polícia está ciente de imagens extremamente dolorosas do incidente de Christchurch circulando na internet", afirmou a polícia local no Twitter. "Recomendamos o não compartilhamento do link. Estamos trabalhando para que essas imagens sejam removidas", acrescentou.

A AFP analisou uma cópia do vídeo postado no Facebook Live que mostra um homem branco de cabelos curtos dirigindo-se à mesquita Masjid al Noor em Christchurch. A AFP estabeleceu a autenticidade do vídeo por meio de uma investigação digital, comparando as capturas de tela das imagens do atirador mostrando a mesquita com várias imagens da mesma área disponíveis na internet.

Um "manifesto" explicando os motivos do ataque foi divulgado na manhã desta sexta-feira em uma conta no Twitter com o mesmo nome e perfil da página do Facebook que transmitiu o ataque ao vivo.

Intitulado "A Grande Substituição", o documento de 73 páginas declara que o atirador tinha a intenção de atacar muçulmanos. O título parece ser uma referência a uma tese do escritor francês Renaud Camus sobre o desaparecimento de "povos europeus", "substituídos", segundo ele, por populações de imigrantes não europeus, que está crescendo em popularidade nos círculos de extrema direita.

No manifesto, o atirador diz que nasceu na Austrália em uma família de baixa renda e completou 28 anos. Ele declara que os momentos-chaves para a sua radicalização foi a derrota da líder de extrema direita Marine Le Pen na eleição presidencial francesa em 2017 e um ataque com caminhão que causou cinco mortes em Estocolmo, em abril de 2017, incluindo uma menina de 11 anos.

O primeiro-ministro australiano Scott Morrison confirmou que o atirador da mesquita Masjid al Noor era australiano. As autoridades da Nova Zelândia anunciaram três prisões, acrescentando ter indiciado um homem por homicídio. 

No vídeo da transmissão ao vivo, o atirador está em um carro, enquanto a voz de um sistema de navegação por satélite pode ser ouvida em segundo plano e a AFP traçou sua rota fazendo uma verificação cruzada no Google StreetView.

Palavras inscritas nas armas do atirador que aparecem no vídeo também correspondem a imagens postadas na conta do Twitter que publicou o manifesto. Este foi o último tuíte publicado por esta conta antes de sua suspensão. As fotos das armas com suas inscrições específicas foram publicadas em 13 de março nesta conta do Twitter.

Também constam, em inglês e em várias línguas do leste europeu, nomes de personagens da história militar, incluindo muitos europeus que combateram as forças otomanas nos séculos XV e XVI. AFP recuperou o vídeo antes que a conta do Facebook fosse desativada logo após os ataques, e fez capturas de tela da conta no Twitter antes de ser suspensa. A AFP não publicará nenhuma imagem.

Um porta-voz do ministério do Interior da NovaZelândia alertou que é provável que o vídeo seja repreensível sob a lei do país e que o compartilhamento seja ilegal.  "O conteúdo do vídeo é perturbador e terá efeitos prejudiciais sobre as pessoas", alertou. "É uma verdadeira tragédia com vítimas reais e encorajamos as pessoas a não assistirem ou compartilharem o vídeo".

Manifestações de líderes mundiais

- Premiê norueguesa: 'Recordação dolorosa" 

"É obviamente extremamente triste, evocando laços dolorosos com nossa própria experiência de 22 de julho, o momento mais difícil do pós-guerra na Noruega", declarou Erna Solberg, referindo-se aos atentados de 2011 realizados pelo supremacista norueguês Behring Breivik.

- Rainha Elizabeth II: "Profundamente entristecida" 

"Neste momento trágico, meus pensamentos e orações estão com todos os neozelandeses", afirmou a rainha, que também é chefe de Estado da NovaZelândia, em um comunicado. "Em nome do Reino Unido, minhas mais sinceras condolências aos neozelandeses", indicou, por sua parte, a primeira-ministra Theresa May no Twitter.

- Presidente dos Estados Unidos: "Massacre horrível"

"Minhas mais sinceras condolência e meus melhores desejos ao povo da Nova Zelândia após o horrível massacre nas mesquitas. 49 inocentes morreram de modo tão sem sentido, com muitos mais gravemente feridos. Estados Unidos apoiam a Nova Zelândia em tudo que pudermos fazer", tuitou Donad Trump. 

- Presidente russo "Autores punidos" 

"Espero que todos os envolvidos neste crime sejam punidos", disse o presidente russo, Vladimir Putin, em um telegrama enviado à primeira-ministra da NovaZelândia, Jacinda Ardern.

- Líder sunita: "Combate ao racismo" 

"Estes ataques são o resultado da proliferação do discurso islamofóbico em vários países, inclusive naqueles com reputação de coexistência", afirmou o grande imã de Al Azhar, a principal instituição do Islã sunita.

- Papa Francisco: "Solidaridade com muçulmanos"

"O Papa Francisco ficou muito triste ao tomar conhecimento dos feridos e das mortes causadas por atos de violência sem sentido contra duas mesquitas em Christchurch, e assegura a todos os neozelandeses, e em particular à comunidade muçulmana, sua sincera solidariedade neste momento", afirma um comunicado assinado pelo número dois do Vaticano, o cardeal Pietro Parolin.

- Presidente de Israel: "Ato desprezível"

"Matar pessoas que rezam, em seu lugar mais sagrado, é um ato depravado e desprezível, para pessoas de todas as religiões e das que não têm. Cruzou-se uma linha vermelha", escreveu o presidente israelense Reuven Rivlin no Twitter.

- Presidente palestino: "Crime atroz"

O presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, condenou o ataque como "chocante" e "ato criminoso atroz".  

- Chanceler do Irã: "Hipocrisia ocidental" 

"A hipocrisia ocidental que defende a demonização dos muçulmanos em favor da 'liberdade de expressão' deve ser detida", escreveu no Twitter o chanceler iraniano, Mohamad Javad Zarif.

- Presidente da Turquia: "Exemplo de islamofobia" 

"Eu condeno energicaente o ataque terrorista cometido contra muçulmanos que estavam orando na Nova Zelândia e amaldiçoo aqueles que o cometeram", disse o presidente turco Recep Tayyip Ergodan em um comunicado no Twitter, no qual ainda afirma que esse ataque é "um novo exemplo da ascensão do racismo e da islamofobia".

- Chanceler da Alemanha:  "Ódio racista"

"Eu compartilho o luto dos neozelandeses para com seus cidadãos atacados e assassinados pelo ódio racista quando oravam pacificamente em suas mesquitas", disse a chanceler alemã, Angela Merkel, em um tuíte publicado por seu porta-voz.

- Presidente francês: "Atuar contra o terrorismo"

"Todos os nossos pensamentos para as vítimas de crimes de ódio contra as mesquitas (...) A França se opõe a qualquer forma de extremismo e age junto com seus parceiros contra o terrorismo no mundo", afirmou o presidente francês Emmanuel Macron no Twitter.

- Ministro da Itália: "Assassinatos infames"

"Absoluta condenação dos assassinos infames, oração pelas vítimas inocentes, compaixão por todos aqueles que dizem que 'é sempre culpa de Salvini'", reagiu o ministro do Interior italiano e líder da Liga (partido de extrema direita), Matteo Salvini.