Ninho vazio

Quando os filhos se vão, à busca de seus caminhos, não só ficam vagos os quartos da casa, mas há também um notório e compreensível vácuo no coração dos pais

Apesar da situação feminina ter mudado tanto, da mulher hoje manter suas atividades e pretensões na pauta do dia, a par de toda a sua entrega à família e o homem entender melhor as aspirações dos filhos, aquela velha Síndrome do Ninho Vazio, batida e rebatida em comportamentalismo e que parece obsoleta, ultrapassada, ainda é forte e sinto isso dentro do meu trabalho.

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Quando os filhos se vão à busca de seus caminhos, não só ficam vagos os quartos da casa, mas há também um notório e compreensível vácuo no coração dos pais, por mais que tentem se focar no quanto a partida poderá ser positiva para seus rebentos.

O que é absolutamente comum, natural, sequente, faz parte do processo. Eis porque quando vejo pais, amigos meus, se recriminarem por  sentirem esse vazio quando um filho solta as asas, insisto em que assumam esse estado sem culpas ou pressões. E só há um jeito de conseguir isso: a clareza de separar que o melhor para os filhos, nem sempre é o melhor para os pais, por mais que torçam por sua felicidade e realização.

Primeiro porque não se muda um quadro mental de um dia para o outro, depois porque sentimento é complexo e sem certezas, jamais se enquadra numa ciência exata ou num conceito fechado. Ainda porque não somos robôs, nem mesmo do entendimento e não podemos determinar “a partir de hoje” no quadro deliciosamente caótico das nossas emoções. Os ciclos em nós completam-se no tempo suficiente e não, quando as fases mudam ou as circunstâncias externas pedem ou sugerem, quando não exigem.

Um filme argentino, que revi recentemente na TV, desse notável cineasta de nova safra, Daniel Burman e que tem o título de Ninho Vazio mostra bem a necessidade do tempo e da maturação para que os pais se adaptem à ausência de seus rebentos, se habituem às escalas de valor que lhe serão impostas a partir de então.

De provedores, eles passam a consultados quando tanto e de apoiadores, depois se tornam auxiliares ou co-participantes e em muitos casos, são relegados a meros expectadores, sem maiores funções que não cuidar de netos e receber para um almoço ou jantar, ocasiões sempre vistas como concessões.

Não se trata de uma visão amarga, mas realista e nem por isso, o amor filial diminui, pode até aumentar em não havendo dependência ou imposição de condições. Simplesmente, faz parte das mudanças estabelecidas pela Sociedade Utilitarista.

Re-significar é muito difícil e demorado, principalmente depois de um envolvimento de afeto, necessidade e entrega como foi determinado para os pais dentro daquela noção do “sangue do meu sangue” ou “feito à imagem e semelhança”. Entranhas falam muito alto, gente e querer que os pais não sintam certa melancolia de abandono é absurdo, é não conhecer nada, absolutamente nada da condição humana.

Por outro lado dizer que nada muda quando os filhos se casam, é um autoengano; lógico que tudo se modifica e é saudável enxergar isso. Mudam visões, alteram-se interesses, criam-se novas expectativas, formam-se outras pretensões.

*Texto publicado em 29/8/2015, na revista Luiz Alca Crônicas, página 60

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