Silêncio eloquente

Um casal não está junto para viver apenas as coisas particulares, mas sim, a vivência universal conjunta

Por: Luiz Alca  -  14/02/21  -  14:02
  Foto: Susanne Pälmer por Pixabay

Não há dúvida de que a conversa íntima entre duas pessoas é uma das melhores coisas do relacionamento humano e principalmente de uma vida a dois. A conversa que surge natural e limpa de justificativas ou obrigatoriedades, o papo que flui e que tem em seu recheio, fundamento, troca, humor, interesse, movimento, inteligência e até uma pitada de ironia, o que é muito gostoso, porque propicia a brincadeira, indício dos jogos amorosos que precisa haver entre um casal.


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Muito importante nos assuntos tratados entre a dupla é o tom mais amplo do que apenas o que se refere à casa, filhos, compromissos e cotidianidade. O que acaba levando a um cansaço sem fim, não só aos dois, mas aos que estão à volta. O que, infelizmente, prolifera. Em nome dessa vida privatizada de que sempre falamos aqui e que dá muito pano para mangas.


Um casal não está junto para viver apenas as coisas particulares, mas sim, a vivência universal conjunta, aquela que tanto contribui para a sociedade como um todo. Essa é a socialização da união, o verdadeiro casamento, o mistério lindo da conjunção.


Mas são poucos os casais que vivem isso, aturdidos pela rotina e pela mediocridade que a tudo dominam, se não tivermos muito cuidado com seus efeitos. Já repararam nisso? Que se não insistirmos em olhar um pouco mais longe, de forma mais ampla ou procurarmos leituras que instiguem, pessoas que deflagrem emoções que precisam sair lá de dentro ou núcleos onde a exigência leva a questionamentos, mergulhamos de cabeça no prosaísmo, no achatamento de circunstâncias que diminuem fatos e que insistem em tomar todo o nosso tempo?


Mas ainda que se exalte a conversa como um ponto alto de uma relação a dois, é importante também valorizar o silêncio que fala no dia-a-dia de duas pessoas. Quando um está ao lado do outro, num fim de semana, por exemplo, na mesma casa, sabendo o quanto estão próximos, mas permitindo um ao outro que permaneça no seu mundo interno, que curta sua leitura numa outra sala ou mesmo na poltrona do lado sem interrompe-lo o tempo todo ou que fique debruçado no balcão da varanda, olhando as estrelas ou meditando, sem achar que está sendo abandonado ou que a parceira está sonhando com outro!


Há horas que a inclusão é mais silenciosa do que barulhenta e que o abraço se faz com o olhar de agradecimento pela cumplicidade. A alternância de deliciosas conversas com fundamentais silêncios é possível sim, num casamento, numa relação amorosa, morando-se ou não na mesma casa. Basta que os parceiros sintam um ao outro e preservem seus espaços, com o máximo carinho. Como diz o poeta austríaco Rainer Maria Rilke "é protegendo e respeitando a solidão do outro, que eu preservo e respeito a minha própria". Que é tão necessária para renovar o amor.


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