O tempo faz mudanças

Um dos ganhos mais bonitos é quando percebemos que estamos ficando a cada dia, mais tolerantes com as humanas falhas alheias

Por: Luiz Alca  -  17/01/21  -  14:46
  Foto: Imagem ilustrativa/Unsplash

A idade limita, sem dúvida, a passagem do tempo deixa marcas fortes, muitas vezes, cruéis. Mas também, expande. Luiz de Camões dizia que "o tempo em tudo faz mudanças". E como faz. Não mudanças necessariamente ruins, apenas modificadoras, transformando imagens, revertendo conceitos fechados e concepções arcaicas.


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Ela nos torna mais lentos, diminui alguns reflexos, principalmente se não tivermos atividade física e mental, restringe espaços, traz certa preguiça, quem sabe, um tantinho de acomodação. O colesterol aumenta, a pressão sobe. Uma amiga que sempre cuidou da saúde de forma obsessiva, caiu na fossa porque saiu dos 12x8 aos 50 anos. Eu ri e disse-lhe "bemvinda ao clube!", o que foi uma vitória para a minha tendência à hipocondria.


Os cabelos se tingem de branco, o que para o homem não deixa de ser um charme (ou pelo menos, uma compensação...), os pneus e a barriguinha insistem em se pronunciar, as rugas surgem inexoráveis por mais que hajam recursos estéticos e quilos de botox.


Chega, vamos aos ganhos! A idade dá a chance de nos fazer muito mais lúcidos e amplos, ainda mais se existe uma consciência de aquisição, evolução e aprendizado na continuidade vital. Ajuda a que não percamos horas preciosas com bobagens e nem nos preocupemos tanto com o que os outros possam pensar e colabora para que diminua quase a zero o desgaste de ficar provando competências, para este ou aquele. Desde que se tenha aproveitado para tentar evoluir e não apenas deixar os anos passarem e depois chamar isso de vivência, o que pouco significa.


Um dos ganhos mais bonitos é quando percebemos que estamos ficando a cada dia, mais tolerantes com as humanas falhas alheias, com os erros e mesmo com as tolices, mas ao mesmo tempo, nos tornamos mais seletivos em relação a nós, às exigências com o nosso Eu, à busca das respostas que ficam claras através de perguntas internas melhor elaboradas.


Se por um lado, perdemos ou diminuímos muito o poder de atração, por outro, se formos inteligentes, ganhamos um enorme poder de sedução. A atração é a chamada para o corpo pelo físico, sem que nada precise ser feito, atua como um imã em termos de sexualidade; já a sedução é o conduzir de alguém aos nossos encantos, um trabalho fascinante envolvendo a sensualidade, que é muito mais.


Se a idade impede, numa viagem, por exemplo, de subirmos mil degraus ou escalarmos um Everest da vida, porque chegamos lá em cima, exauridos ou à beira de um enfarte, nos permite curtir cada visão, cada sala de um museu, cada beleza que se apresenta aos olhos de um jeito especial: unindo passado e presente, valorizando a história e louvando aos céus por nos ter sido permitido ver aquilo.


Aprendemos, a agradecer o privilégio, a dádiva, a graça. Em tudo e por tudo. Ao deixarmos a arrogância da juventude, que não reconhece e se acha no direito e na posse de tudo, encontramos a humildade da gratidão e entendemos que o preço pago para se conseguir isso e aquilo, faz parte do processo de amadurecimento. O tempo, verdadeiramente, em tudo faz mudanças.


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