O interesse do drama

Sem dramaticidade, o comportamento humano fica muito chato, sem graça; a realidade se torna tacanha

Por: Luiz Alca  -  03/01/21  -  12:50
  Foto: Imagem ilustrativa/Unsplash

"A vida não é trágica é cômica" dizia Jacques Lacan, o imenso psicanalista francês. E batia no ponto de que a felicidade é drama e não, paraíso. Sem dúvida, uma pessoa dramática é sempre mais interessante. Porque em suas discussões, apresenta argumentos contrários, dúvidas, questionamentos entre alegria e dor, prazer e tédio, permanecer ou fugir. O contrário disso é uma apática personalidade que não ousa ou insiste em se manter no lugar comum.


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Deixando claro, uma das primeiras lições de teatro: drama não é tragédia. Que começa pelo fim, cujo ponto de sustentação é um texto derramado de tristeza. Como "Romeu e Julieta", por exemplo. Drama é argumentação contraria, é um roteiro de arte ou de vida, cujo conteúdo mostra os altos e baixos, as duras hesitações de uma existência em suas lutas para se encontrar. É novela, gente!


Confesso que admiro as pessoas em cuja presença sinto a dramaticidade de um viver que não se conforma com o "status quo", que se abre para a inquietação e a busca. Que já entendeu que essa vida nos dada, mas não nos é dada feita, chega como um papel em branco que temos que preencher de forma manuscrita. As que choram ao assistir um filme ou uma peça de teatro que mexa com seus sentimentos, que riem diante de uma circunstância de humor, que não deixam que pisem nos calos sem estrilar. Mas que conseguem se dosar em doçura e meiguice quando é preciso. Enfim, os que assumem a sua complexidade ao invés de se gabar de uma linha única de pensamento e que se apaixonam sem poupar a emoção.


Sem dramaticidade, o comportamento humano fica muito chato, sem graça; a realidade se torna tacanha, o cotidiano curto e sem sabor. Pessoas sem drama não atraem e sequer inspiram confiança porque parecem acima das misérias comuns do dia-a-dia. E, principalmente, não propõem assim como não aderem às mudanças, porque é a doce loucura que tem o mérito de quebrar preconceitos na sociedade alienada e pragmática.


Quer ver um lindo convívio de dramaticidade? Estar próximo de um parente, de um irmão, de um parceiro ou de um amigo, que perturba, instiga, desafia, confunde, e incomoda. Com perguntas que impulsionam e estimulam. Como aquele filho que ao invés de acentuar ou aceitar - por puro comodismo ou indiferença - na mãe ou no pai, a acomodação da idade, dá-lhe o empurrão para que se movimente, saia, vá ao cinema, a assistir uma palestra. Instigar e desafiar e não, desestruturar, que significa derrubar os pontos básicos de segurança sem saber se prontos para cair ou sequer, se precisam cair.


Toda a beleza do drama é a grande questão humana, não fossemos seres emocionais, sensíveis, intuitivos, amplos em nossas lindas incoerências. Não somos almofadas e nem vasos. Não somos fechados em concretude. Nos desenvolvemos e evoluímos, descobrindo novas facetas a cada dia. Vivemos numa luta entre o Bem e o Mal, somos uma ilha firme de sanidade num mar de caos.


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