Navegar é preciso

O barco e a decisão de seguir fazem parte do roteiro existencial dos que não querem passar em branco, morrer na praia

Por: Luiz Alca  -  03/01/21  -  12:35
  Foto: Imagem ilustrativa/Unsplash

Uma linda metáfora do comportamentalista espanhol José Antonio Marina, chamada de "Ética para náufragos", que tive oportunidade de conhecer em 1998, numa magnífica exposição sua, mostra bem não só o que é realmente a ética, no aspecto filosófico do "ethos" grego, como o quanto ela é importante nas horas dos naufrágios, quando precisamos nos atirar no mar para não morrer, não só de forma involuntária quando o barco em que estávamos afunda, mas também voluntariamente, quando percebemos que tomamos a nau errada...aquela que acabará por nos aprisionar ao invés de conduzir ao destino desejado, aquela que Camões chamou de "Nau Sombria dos Escondidos".


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Em alto mar, precisamos, intercalar as braçadas seguras e corajosas com o boiar, para tomar fôlego e prosseguir. Até chegar à praia, terra firme e descansar, recuperarmo-nos e sentir a agradável sensação de que estamos salvos.Até que para as almas inquietas e não satisfeitas com uma parte apenas da jornada, a necessidade de voltar ao mar; imperiosa quando surge a questão interna "não foi para morrer na praia que lutei para não sucumbir, mas também o foi para ficar só nesta ilha, tenho metas maiores e mais importantes do que apenas sobreviver".


Construir agora o próprio barco por menor e mais precário que seja é a finalidade; trata-se do momento duro e precioso na vida em que entendemos que muitos nos ajudam, colaboram, estendem a mão, mas contar mesmo, só o podemos, conosco. Pronto o barquinho, outra dvida nos assalta: voltar ao destino conhecido ou seguir em frente? Eis um duelo interno; tomara que vença o prosseguir, já que em algum lugar estará aquele objetivo perseguido e sonhado, ao sair em viagem.


O barco e a decisão de seguir fazem parte do roteiro existencial dos que não querem passar em branco, morrer na praia ou manter-se seguros pagando o preço alto do aprisionamento num porão de navio. A embarcação comporta vários nomes, como "persistência do possível", "coragem", "esperança". E tudo o mais que possamos acreditar.


Ah, um dia voltaremos, já sem qualquer medo ou sufoco, por sabermos que o adquirido naquela aventura não mais se perde. Aliás, essa é a saga da vida humana: um interminável regresso e uma permanente saída.


Os que não enxergam isso, passaram em brancas nuvens, não deram ao existir a importância que tem, entre dores, alegrias, temores e satisfações só preocupados em manter-se em segurança. Não entenderam que a vida é um substantivo à espera de um adjetivo e que a dignidade da vida pode ser um valor superior a ela. Por favor, amigos leitores: que não haja desperdício do substantivo, que se lute para fazer brilhar o adjetivo. Sêneca, o filósofo latino dizia " náufrago fui antes que navegante". Que imensa verdade!


E um querido mestre escritor português gritou "navegar é preciso, viver não é preciso", o que muitos custaram a entender, pela sutileza metafórica. Provavelmente, os que trocaram os sonhos pela segurança de um navio sombrio ainda que vivendo em seu porão.


É o que vale o salvamento entre tantos naufrágios que sofremos pela caminho. Essa é a ética que vale e nos faz feliz.


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