Doce preguiça

"Saber ficar à toa pode ser uma arte, uma das minhas dificuldades"

Por: Luiz Alca  -  31/01/21  -  14:35
  Foto: Pexels/ Pixabay

Vivo um duelo de cuidado e admiração com esse pecado capital que é a preguiça. Da qual creio nunca ter feito uma crônica antes. Cuidado por ver tantas pessoas não deslancharem por adiar resoluções, achar tudo difícil, fazer do cotidiano um ensaio da procrastinação, empurrando tudo com a barriga. E admiração, nas horas de cansaço físico extremo, quando louvo os preguiçosos, o que raramente consigo ser, por mais que me esforce.


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Ao louvar a preguiça que não possuo, não falo da indolência, da inércia, da improdutividade que
domina corpos e mentes, o que considero péssimo, mas de uma doce lentidão, um ócio que pode ser muito inteligente como diz o sociólogo Domenico de Masi. Ou melhor, como afirmava o francês Albert Camus "são os ociosos que transformam o mundo porque os outros, muito ativos, não têm tempo algum para esse tipo de entrega à criatividade".


Saber ficar à toa pode ser uma arte, uma das minhas dificuldades, já que preencho um possível horário livre - como o cancelamento de uma consulta dentária ou uma reunião previamente agendada - com alguma atividade ainda não realizada - arte essa, que pode nos propiciar análises soltas do cenário à frente, possibilidades de mudanças, observações até dos ambientes em que vivemos. Noutro dia, num desses raros momentos, sentei no sofá da sala de casa e olhei ao redor, revendo objetos queridos com prazer. O que até me pareceu total piração, mas que fez um bem danado.


Como também não subjugar o ócio ao negócio e assim, poder refletir, analisar, propor a si mesmo,
novos caminhos e possíveis mudanças; aquietar-se para reproduzir ou reinventar. O que está ficando impossível, nesse mundo neurótico e tecnológico em que as pessoas vivem plugadas e conectadas o tempo todo e sequer arriscam um olhar à volta, em maravilhosa contemplação. Deus, o que será de nossos jovens num futuro próximo, incapazes dessa atitude oblativa e inteligente?


Milan Kundera, o tcheco autor de A Insustentável Leveza do Ser, numa outra obra magnífica chamada de A Lentidão, chama para o desaparecimento gradual e muito perigoso de se curtir a sequência lenta e cair no transtorno da pressa, o que já é uma realidade sombria no pragmatismo, na superficialidade e no aturdimento que nos rodeia.


Uma doce preguiça, enfim (a palavra vem do latim pigritia, quem vem de piger-lento) que nos envolva na possibilidade de reformular, de nos reproduzir, de criar novas ânsias espirituais, que seja uma arma contra a escravidão do ter que fazer, do não deixar de ir. Principalmente quando se trata de compromissos sociais pesados, alienantes, que podem não levar a nada. Apenas esgotam o físico e exaurem a mente.


Não se pode esquecer de que somos filhos da formação judaico-cristã, aquela que prega "ganharás o pão com o suor do seu rosto", o que transformou a preguiça em pecado ou a deturpou como inação. O regime nazista aproveitou-se disso para um cunhar um slogan em seus odiosos campos de concentração, com vi em Auschwitz "O trabalho liberta".


Salve, pois a preguiça saudável, aquela que nos leva a "olhar os lírios do campo" como pregou o
Senhor ou a nos render ao imaginativo, a divagação lúcida e poética que nos conduz às belezas da alma.


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