A neblina da alma

Como diz o escritor tcheco Milan Kundera "na neblina a pessoa é livre, mas é sempre a liberdade de uma pessoa na neblina"

Por: Luiz Alca  -  10/01/21  -  11:10
  Foto: Imagem ilustrativa/Unsplash

A cada dia valorizo a naturalidade, admiro as pessoas que conseguem ser elas na maior parte do tempo, que não usam de subterfúgios para conseguir o que querem, não dialogam com meias palavras, não armam situações para levar vantagem - as tais "pontes" de oportunismo e nem se utilizam da bajulação como comportamento cotidiano em suas pífias e presumíveis vitórias.Assim como lamento ver as pessoas se esconderem de si mesmas, manterem uma falsa postura, disfarçando o que realmente são para dar satisfação à sociedade, dentro de seus parâmetros do considerado certo ou errado.


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Aqueles que vejo tornarem-se escravos da aprovação dos poderosos. Sem dúvida, que o personagem precisa ser usado na maioria das situações, mas o Ser não pode ficar na sombra, esquecido, perdido em meio a tantos compromissos, deveres, regras de conduta e fórmulas fechadas para agradar. Também os que guardam certos segredos com medo de que expô-los, lhes tiraria a estima e o respeito dos outros. Mal sabem que o sacrifício não vale a pena, à medida que a revelação, em havendo firmeza do portador, não vai mudar nada. Ou pelo menos, nada que valha realmente a pena. Essas pessoas vivem na neblina e sua liberdade é sempre comprometida. Como diz o escritor tcheco Milan Kundera "na neblina a pessoa é livre, mas é sempre a liberdade de uma pessoa na neblina". Lembrete que tento não esquecer, mesmo tendo a certeza que há dias em que a névoa é brava.

As crises de confiança nas relações humanas que vemos hoje são muito responsáveis por essa neblina, já que os relacionamentos, em sua generalidade, ainda que dentro de reconhecidas honrosas exceções, não são mais espaços de tranqüilidade, troca de afinidades e conforto espiritual.

São fontes de ansiedade pelo compromisso e pelas exigências do desempenho. Esta frase tão simples, singela e imensa "sou apenas seu amigo" vai deixando de ser destacada. Também uma das maiores riquezas: a convivência com pessoas com que não precisamos nos armar ou medir palavras e que pelo olhar e pela atenção também nos miram com a naturalidade da compreensão e do mútuo interesse. Engana-se quem pensa que a neblina defende. Ela é inescrutável, opaca, impermeável. Um esconderijo só favorito para o difuso. Que não pode ser banalizado como dizia a pensadora alemã Hannah Arendt, porque é irmão siamês do mal. "O que tememos é mal e o que é mal, nós devemos temer", afirmava a brilhante mulher que ela foi, autora de "Banalização do Mal", que em sendo judia convicta bancou um longo romance com o filósofo Martin Heidegger, considerado simpatizante do nazismo, nos piores tempos.

A neblina é feita dos vapores do medo e exala o mal. Não a neblina da estrada, das florestas nas manhãs de inverno ou nos picos, mas a neblina da alma, das atitudes dúbias, do sub-reptício, do capcioso. A luz está no olhar limpo, na fisionomia que não esconde.


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