A memória do paladar

São muitos os sabores da saudade de cada um; eis porque há tantos livros de culinária inspirados no menu da casa materna ou familiar. Verdadeiros símbolos de momentos inesquecíveis

“A memória do paladar recompõe com precisão instantânea através daquilo que comemos, quando meninos o próprio menino que fomos. E com isso nos aquece e reconduz às lembranças mais queridas” disse Carlos Drummond de Andrade, o nosso poeta maior, num dia de devaneio e, provavelmente, ao lembrar das mais doces origens.

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Sem dúvida, de repente alguém nos oferece um doce hoje raro e que é receita de família, como ambrosia, por exemplo, e todo um paladar de recordações nos levam a alguém, a uma reunião na casa de uma tia querida, àquela data que sempre se comemorava, aos Natais da infância e às ofertas queridas daquelas senhoras que traduziam seu encanto e afeto por nós através de seus quitutes.

Mesmo quem não se dedicava às lides culinárias, como minha mãe, mas tinha um prato ou doce de sua especialidade, retorna em sabor de saudade, quando experimento um brigadeiro bem feito, o que, inexplicavelmente, ela fazia como ninguém.

E às vezes, nem se chega ao paladar, basta a visão, quer numa mesa ou numa vitrine de confeitaria. Sempre que vejo doce de batata roxa,  mesmo aqueles oferecidos em vidros nas lojinhas das estações de águas, lembro de minha avó Inacinha que fazia um, fantástico, na plenitude do roxo e não no desbotado de hoje e o colocava no mesa da copa para esfriar, depois de polvilhá-lo com uma canela especial. O que nem dava tempo porque a gente comia antes.

Mas nunca é no tempo da execução que se dá valor às preciosidades gastronômicas que tanto qualificam uma pessoa. Só depois, muito mais tarde valorizamos. Numa cena do filme Viagem ao Centro da Terra, de Julio Verne, quando os componentes da missão exploradora, estão mortos de fome e sede, o cientista escocês que a comandava, feito com toda a sobriedade e elegância por James Mason, fala à mulher deslumbrante que era a ruiva Arlene Dahl sobre a sopa de sua mãe.

Com a voz embargada, descreve o quanto tinha horror quando garoto de todas as noites de inverno tomar a sopa de legumes, uma especialidade da terra de origem, Glasgow, que a mãe preparava. E ela sempre lhe dizia “Oliver, um dia você estará numa situação que o fará sonhar com esta sopa fumegante”. E ali, naquele fim de mundo, ele ansiava pelo precioso caldo feito com tanto carinho.

São muitos os sabores da saudade de cada um; eis porque há tantos livros de culinária inspirados no menu da casa materna ou familiar. Verdadeiros símbolos de momentos inesquecíveis, de olhares ansiosos sobre nossa opinião sobre a comida, feita com o máximo cuidado. O que hoje se perdeu muito, inclusive nas festas infantis, quando o ritual determinava o encontro das mães, tias e avós, dias antes, para fazer e enrolar os docinhos, enquanto a criançada peruava à volta para lamber a panela ou roubar uma unidade, mesmo sendo ameaçado de levar tapa na mão.

Só de escrever essa crônica, sinto água à boca do bolinho de banana de minha avó Marie, do quindão inigualável da prima Zélia, do tabule, uma salada síria, de Tia Ida e de outros tantos sabores de tempos e presenças que não voltam mais e que ficam como homenagem e saudade. Ainda bem, como diz Drummond que a memória do paladar recompõe o menino gordinho e guloso que fui. E que deve estar por aí em alguma sombra de mim mesmo que me circunda e nem percebo.

*Texto publicado em 29/8/2015, na revista Luiz Alca Crônicas, página 36

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