A aventura do amor

Os grandes amores da História primaram por durar pouco... pelo menos no plano físico deste mundo concreto e responsável por erros e acertos. Assim, não passaram pelo desgaste do cotidiano e menos ainda pela chatice do prosaísmo de um dia a dia, que arrasa qualquer sonho e romantismo

Há alguns anos, num seminário sobre os relacionamentos humanos, em São Paulo, em dois dias de palestras, mesas redondas e discussões, com a presença de filósofos de renome, psiquiatras e psicanalistas, interessados e comportamentalistas do Brasil e do exterior, chegou-se a uma conclusão surpreendente, diante da questão “qual a mais difícil forma dentre as relações humanas?”.

Depois sociodramas, ensaios e teses, a resposta veio clara e definida “a mais difícil forma de relacionamento humano, aquela que contém o maior número de nuances, paradoxos e complexidades é a vida a dois”.

Surpresos com tal conclusão? Com todo o direito claro, ainda mais que atendo nesta crônica o pedido dos românticos que ao saber da revista, solicitaram: não deixe de colocar um texto sobre o amor.  Sem dúvida não fosse  a importância da questão do apaixonamento, um dos encantos da vida.  Só que nesta nossa existência controversa, tudo é feito de perdas e ganhos, luzes e sombras, dificuldades e facilitações, o que se acentua ao longo de um caminho comum.

Talvez por isso, os grandes amores da História, primaram por durar pouco...pelo menos no plano físico deste mundo concreto e responsável por erros e acertos.  Assim não passaram pelo desgaste do cotidiano e menos ainda pela chatice do prosaísmo de um dia-a-dia, que arrasa qualquer sonho e romantismo.

Os amantes ideais são os que não tiveram o peso do “amaram-se e foram felizes para sempre”. A tragédia, os eventos duros dos desencontros e incompreensões, elevou o sentimento e cortou o risco da perda da grandeza do encontro inicial: Tristão e Isolda, Romeu e Julieta, Dante e Beatriz, Werther e Charlotte.

Mesmo porque a duração não é um valor em si. Tantos casais conhecemos, que chegaram às Bodas de Ouro ou até de Diamante, apenas se aturando, em nome da instituição, dos filhos ou pior, desse famigerado “para dar uma satisfação à sociedade”.  Aguentar um ao outro, com frieza ou banalidade, sem mais qualquer envolvimento ou troca bem humorada, fundamental para que se mantenham os jogos de sedução.

Por outro lado, a precipitação, os julgamentos rápidos de que a relação é maravilhosa, as paixões exaltadas podem também ser um perigo, ao confundir percurso com acontecimento, já que o amor pede elaboração sem racionalismos, construção e solidez sem abandono da entrega e da inquietação. Não é fácil.

Num livro magnífico, “Éloge de l´Amour” (Elogio do Amor) o filósofo francês Alan Badiou fala dessa aventura, que tanto pede intempestividade como obstinação e regularidade, uma tarefa e tanto, que instiga e fascina ou cansa, entedia, desanima. Diz ele “abandonar a empreitada ao primeiro obstáculo, à primeira divergência séria ou aos primeiros problemas é uma desfiguração do amor”.

E segue mostrando que a beleza amorável é triunfar sobre os obstáculos que o mundo, o trivial, os bloqueios que o espaço e o tempo inegavelmente trazem, sem esquecer os enganos do envelhecimento e dos alheamentos da luta diária pela sobrevivência. Não é isso uma aventura, quem sabe, a mais linda de todas elas?

E também o que faz do tema, não um assunto especial e dirigido aos jovens casais apaixonados, mas uma radiosa celebração para todos os que se permitiram topar essa aventura.

*Texto publicado em 29/8/2015, na revista Luiz Alca Crônicas, página 26

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