[[legacy_image_303462]] É possível ser criança aos 60 anos? No caso do escritor José Roberto Torero, que celebra 60 anos de vida (em 9 de outubro) e 60 livros de obra, a resposta pode ser sim. Afinal, do total publicado, o placar está 32 a 28 para os livros infantis e juvenis. O mais recente deles, Os Penteados de Rapunzel, em parceria com Marcus Aurelius Pimenta, está no ‘combo’ de lançamentos que o escritor promove sábado, às 16 horas, na Realejo Livros (Av. Marechal Deodoro, 2, Gonzaga, Santos). Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! - “Espero que eu tenha amadurecido o suficiente”, brinca, sobre ser criança aos 60 anos. “De saber o que é certo ou errado. Mas a curiosidade infantil é boa. Uma certa alegria, também. Que não é exatamente a mesma da criança. Uma disposição à alegria. Essas coisas, sim, eu guardo da criança”. Torero é taxativo: não teve “a sorte ter lido um livro infantil”, só os juvenis, mais tarde. A própria palavra utilizada, ‘sorte’, já denota a importância que atribui a esse gênero, que existe, sobretudo, para divertir. E, ao divertir, traz um carrossel de aptidões que vai ecoar no adulto de amanhã. “A criança que lê fica mais curiosa, com vocabulário melhor, com estruturas narrativas na cabeça, sabe contar uma história”, pondera Torero, a partir da própria experiência com as crianças. QuestionamentosA Literatura Infantil entrou na vida de Torero pela porta do cinema. O sucesso do curta-metragem Uma História de Futebol, que concorreu ao Oscar em 2001, roteirizado por ele, por Maurício Arruda e Paulo Machline – que também produziu e dirigiu a obra –, fez com que surgisse a ideia: por que não expandir e recriar esse curta em um livro para crianças? Com o livro homônimo nas prateleiras das livrarias, Torero começou a ser convidado pelas escolas a conhecer os seus pequenos leitores. “Nem sabia que escritor ia em escola. Cheguei em uma delas, centenas de crianças que haviam lido me abraçaram”. Em outra escola, os alunos de todas as 15 classes haviam lido Uma História de Futebol. Quando Torero chegou, foi um evento: os professores vestidos como personagens, houve leituraços, peças de teatro... cada classe preparou um trabalho baseado no livro. Desde então, em 2003, o escritor costumeiramente recebe convites de escolas, sobretudo da Capital, onde mora – Torero é santista de nascimento. E se vem se surpreendendo com a perspicácia dos jovens leitores, também tem sido uma grata surpresa a estrutura das escolas municipais paulistanas para o fomento ao livro. Segundo ele, por lá não há bibliotecas, mas ‘salas de leitura’. A partir delas, os professores desenvolvei atividades de leitura constantes do currículo. “Quando vou falar com esses alunos, é como se estivessem em qualquer escola cara de São Paulo”. Perda de um leitorTodas as construções, eventos e atividades envolvendo a leitura infantil valem pouco, se o principal não for observado: o livro certo, na hora certa. “Se o livro não deixa a criança feliz, é uma escolha errada”. Uma escolha que pode significar a perda de um futuro leitor, como quase ocorreu com o próprio Torero. “Tive que ler Kafka, A Metamorfose, com 13 anos. Não entendi nada. Peguei um bode imenso. Só fui ler de novo aos 40 anos”, recorda. “É como José de Alencar, O Guarani, que não sobreviveu bem ao tempo para ser lido no Ensino Médio com prazer. Mas, sim, para ser estudado a quem seguir um caminho acadêmico”, avalia. Por tudo isso, resumindo: para que os adultos do amanhã sejam mais articulados, cultos e críticos, Torero concorda que o melhor presente neste Dia das Crianças é um livro certo, para qualquer hora. “Esquece a loja brinquedos, vai na livraria. O livro é um brinquedo diferente, até exótico hoje em dia. Provavelmente, mais barato do que o videogame”, sorri. A seguir, além de Os Penteados de Rapunzel, algumas outras dicas a quem deseja presentear as suas crianças com a magia de um livro. LançamentosOs Penteados de Rapunzel, em parceria com Marcus Aurelius Pimenta e ilustrado por Rogério Coelho, é um reconto da história clássica, coletada pelos alemães irmãos Grimm. Nesta adaptação, não há príncipe para quem a menina jogasse suas tranças e fosse salva, mas 12 histórias em que a própria Rapunzel, por seus próprios meios e artimanhas, escapa do jugo da bruxa que a trancafiou na torre. As Bibliotecas Fantásticas, que Torero também lança neste sábado, tem ilustrações de Eloar Guazzelli e não é um livro para crianças – ao menos, não idade. Mas instiga a imaginação de qualquer ser humano ao descrever bibliotecas improváveis – para não dizer impossíveis, já que, ao menos nas páginas do livro, elas existem. Por exemplo: em uma delas, os livros são comestíveis; já na biblioteca de Veneza, são impressos em couro de ovelha, portanto impermeáveis, o que é uma vantagem quando as águas da lagoa sobem...