[[legacy_image_302227]] Glu glu, yeah yeah. Pronto, não precisa mais nada. Pelo bordão, o País inteiro já sabe que se fala de Sérgio Neiva Cavalcanti, ou Sérgio Mallandro. Para ele. tanto faz: aos 67 anos de idade (fará 68 no próximo dia 12) e 43 de carreira, o Sérgio irreverente que o Brasil conhece das telas e dos palcos é o mesmo na vida privada. “Tanto que fui expulso de quatro colégios”, enfatiza. Nesta entrevista, ele fala de sua infância e adolescência no Rio de Janeiro, relembra como chegou à televisão, após participar do programa Cidade contra Cidade, no SBT, e fala da sua relação com Silvio Santos. Faz ainda uma análise do humor de antigamente e atual e fala de seu novo show, Quem Tá Desesperado Gritaaa, em cartaz em Santos, nesta sexta-feira (6), detalhes mais abaixo. Você parece ser naturalmente engraçado. É isso mesmo? Ou o Sérgio Mallandro, na intimidade, é totalmente diferente? Eu sempre fui desse jeito, tanto que eu fui expulso de quatro colégios. Sempre fui piadista: o professor fazia uma pergunta, eu soltava uma piadinha. Sempre fui aquele cara que chegava na praia e começava a contar uma história, tinham duas pessoas, daqui a pouco, quatro, logo já eram oito, quinze pessoas ouvindo. O pessoal ficava falando ‘tem que ir pra televisão, tem que ir pro teatro’. Até o dia que eu larguei a faculdade de Comunicação e fui para o Teatro Tablado. (Depois do Cidade contra Cidade, quando Silvio Santos viu seu potencial humorístico) Me chamaram para fazer uma entrevista no SBT, o Sílvio Santos gostou, me chamou para fazer o programa de auditório O Povo na TV (com Wilton Franco, Wagner Montes, Christina Rocha e Mara Maravilha), depois pra ser jurado no Show de Calouros. A minha essência é essa mesma, no meu show conto histórias como sempre fiz a vida toda, conto histórias do meu padrasto, que era general, por exemplo. O seu padrasto era o general Caio Marcos Ovale de Lemos, veterano de guerra, capitão da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Como era a convivência com ele, sendo o piadista que você é? Perdi a pessoa que mais amava com 12 anos de idade, que era meu pai. Minha mãe casou com um general quando eu tinha 14 anos – imagina: um general de brigada! –, o cara chegou na minha casa e queria me educar como se estivesse em um colégio militar. Então, tive muito atrito com ele. Ele ficava no banheiro um tempão, eu batia na porta ‘general, posso passar?’, ele respondia ‘guarde o local’ (risos). No dia seguinte, coloquei o despertador mais cedo, entrei antes no banheiro, ele ‘quem tá aí?’, ‘soldado 14, guardando o local, general’. ‘Leila (mãe de Sérgio), eu vou invadir, Leila, tá me provocando!’. A minha casa era uma guerra. Eu respeitava ele, era marido da minha mãe, mas eu era um garoto de 16, 17, 18 anos, tinha muito atrito. Depois, lá na frente, veja como é a vida, virei artista, fui eu que ajudei ele bastante no hospital, quando ficou doente. Apesar de tudo isso, eu o via com bons olhos, pois ele amava muito minha mãe. Você era de uma família de classe média. Fora esses embates com seu padrasto, como foi a sua infância e adolescência? E o que teria feito se não fosse artista? A minha adolescência era na rua, no carrinho de rolimã, futebol de botão, futebol na rua, minhas paixões eram futebol e o jiu-jitsu – sou faixa preta de jiu-jitsu. Quando fiz 18 anos e passei na faculdade (de Comunicação), minha mãe me deu um carro, porque ela achava que eu nunca passaria no vestibular. E nem sei como passei mesmo, levei meu São Judas Tadeu na prova, era múltipla escolha, ele guiou a caneta. Então minha mãe disse: ‘eu te dou o carro, mas não dou mais mesada nenhuma, se quiser botar gasolina, vai trabalhar’. Aí, senti na pele. O carro ficava parado, eu fui vender. Vendi parafuso, aposentadoria, livro, vendia roupa na praia. juntava as gatinhas e tal, eu sabia vender, fazia a pessoa rir. Tinha gente que comprava de cansaço, ‘vou comprar porque tu é muito engraçado’. Você falou da perda de seu pai, do padrasto. Sob um prisma artístico, Silvio Santos foi um pai para você? O Sílvio Santos é um anjo da guarda na minha vida. Todo mundo tem um anjo na vida, pessoas que sempre abriram portas para você. Ele foi um anjo da minha vida, que me abriu várias portas. Por ele eu virei o Sérgio Mallandro, tenho o carinho do meu País, por onde ando as pessoas me abraçam, me recebem... isso já há mais de 40 anos. Minha vida sempre foi isso: palco, luz, câmera, pessoas rindo abraçando, brincando, sou muito grato a ele. Conheço a essência do Sílvio Santos, é um cara honesto, muito franco, ele sabe diferenciar o artista e o empresário: como ele também é artista, te trata como artista, e isso é muito legal. Ele tem um carinho muito grande por mim e eu por ele. O stand up é um formato relativamente novo no Brasil, em comparação com os shows de humor que havia nas décadas de 70 e 80. E você se deu muito bem nele? Quais as diferenças que você vê no stand de hoje em dia ao humor daquelas décadas? A diferença é que antigamente os humoristas contavam piadas. No stand up, geralmente, fala-se de si próprio. Ou seja, sacaneio eu mesmo. Antes, a piada tinha um enredo que se desenrolava, e só final o pessoal ria. No stand up, você fala algo, a pessoa ri; fala outra coisa, mais risadas. E antigamente falava o que se quisesse, contava qualquer coisa. Hoje em dia, não. Você tem que respirar e ‘pô, se eu falar isso aqui, posso ofender alguém’. A piada antiga, hoje, já não cabe mais. Não é que tenha que haver censura, mas bom senso: eu não quero que ninguém saia do meu show triste. Conto minha história, a história dos artistas que conviveram e convivem comigo, situações com minha namorada, como é a relação, vou contando coisas do cotidiano. É outro mundo, em relação àquele que a gente viveu 40 anos atrás. Como você encara essa mudança de mundo? Acho normal. Era uma coisa completamente injusta como as pessoas viviam antigamente. Preconceito de raça, de opção sexual. Houve uma evolução muito grande, das pessoas poderem ser mais livres e mais felizes. Eu fui criado em um mundo que eu chamava meu amigo de narigudo, orelhudo, macarrão, olívia palito... eu sou o malandro; quando me deram o apelido, eu chorei, era quase bandido, mas o malandro pegou. Antigamente, a gente achava que ninguém ficava magoado, Você tem que se atualizar, existe uma evolução. Você fez muito bem essa atualização: teu berço artístico é a tevê, mas, hoje, você tem o show de stand up e um podcast, O Papagaio Falante. Como foram essas transições ao longo dos anos? Estou sempre tentando me reinventar porque eu estou vivo. Faço stand up desde 2009, fui aprimorando. Agora, veio o youtuber. Na pandemia, pensei ‘vou fazer um podcast pra distrair’ e virou sucesso. O ibest nos coloca entre os 20 melhores podcasts do Brasil, entre mais de 32 mil. Não entendi nada, mas fiquei feliz. Tem alguma coisa de que se arrepende na vida artística ou que poderia ter feito diferente? Nunca me arrependi de nada. Tudo é aprendizado, mesmo quando as coisas estão erradas. Sempre fiz as coisas, algumas não deram certo, mas não eram para dar mesmo. Quando olho pra trás, só tenho orgulho. Não tenho problemas, tenho obstáculos, porque problema é quando você chega no hospital e te dizem que você vai morrer, é aquela pessoa que você ama sofrer um acidente e partir. O resto é boleto, briga com a namorada e celular quebrado. Serviço: Quem Está Desesperado Gritaaa, com Sérgio Mallandro, nesta sexta (6), às 21 horas, no Teatro Municipal Braz Cubas (Av. Pinheiro Machado, 48). Ingressos entre R\$ 50,00 e R\$ 100,00, à venda em na internet.