[[legacy_image_109099]] Pobre Stephen King. Se dependesse dos filmes baseados em sua obra, ele seria muito mais lembrado, provavelmente, como um escritor de segunda categoria do que como o maior autor contemporâneo de literatura de terror. Convenhamos, quanto mais próxima do original, mais medíocre tende a ser a adaptação de seus livros para a tela. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! O Iluminado (1977) é uma história de dar arrepios, página a página, mas a versão de Stanley Kubrick para o cinema, em 1980, não se tornou um ícone cultural à toa. Foi ainda mais longe, a partir das mesmas ideias. Essa é a questão com as adaptações. Elas tanto podem ser uma bênção para os escritores como uma maldição – uma bênção financeira e uma maldição artística, bem entendido. Se todo filme depende de uma boa história para funcionar, é difícil imaginar fonte melhor para isso que um livro consagrado pela crítica ou pelo público (ou ambos). O problema é que, por mais respeitado que seja o autor, livro não é roteiro. A literatura não é uma peça a mais na linha de montagem do cinema, e sim um meio sem nenhum outro compromisso, além de expressar o pensamento de quem escreve. Hollywood, em particular, nunca se preocupou muito com detalhes como fidelidade a um texto. E tanto melhor para o público. Fosse assim, os filmes estariam aprisionados numa estrutura estranha a eles, subservientes a um outro meio, em vez de desenvolverem uma linguagem própria. Mesmo o Clube da Luta (1996), do escritor Chuck Palahniuk, transposto quase que vírgula por vírgula para a tela, em 1999, pelo diretor David Fincher, tende a ser lido com a canção Where Is My Mind, da seminal banda de rock alternativo Pixies, ecoando em algum lugar da memória, nas últimas páginas – como no filme. E, afinal, toda história impressa numa página também funciona como um filme imaginário. É virtualmente impossível filmar Malone Morre (1951), do escritor irlandês de vanguarda Samuel Beckett (e menos ainda seu livro seguinte, O Inominável). Mas é tentador pensar as histórias de Beckett como uma sucessão de imagens abstratas do tipo que algum diretor experimental cheio de ácido produziria, no cinema underground dos anos 60. Qualquer “filme baseado no livro” está condenado a ser qualquer outra coisa, menos a versão visual da fonte literária em que se baseia. Na verdade, quanto maior a infidelidade, maior a chance de que ele seja bem-sucedido. A adaptação fiel está condenada a ser um navio que passa no horizonte, sem porto à vista.