[[legacy_image_304636]] Antes de dar voz em suas canções a quem pouca ou nenhuma voz tinha, Odair José trilhou o caminho de muitos jovens em busca de uma carreira musical: deixou Goiânia para o Rio de Janeiro, onde chegou a dormir na rua antes do sucesso. Hoje, aos 75 anos, o autor de Eu Vou Tirar Você Desse Lugar, Uma Vida Só (Pare de Tomar a Pílula) e outros clássicos controversos da chamada Música Brega – apelido que ele refuta – continua com a mesma inquietação artística do princípio. Convidado para fazer o show de abertura da 15ª Tarrafa Literária, quarta-feira (18), no Teatro do Sesc Santos, o cantor relembra nesta entrevista o início da carreira e os problemas com a ditadura, além de fazer uma reflexão sobre o próprio trabalho e o ser humano. Como foi o início no Rio de Janeiro? Você chegou a dormir na rua, não? Sou de Goiás, cidade de Morrinhos, e muito cedo eu me mudei para Goiânia. Com 14, 15 anos, começou aquele sonho de ter uma banda. Fui percebendo aos poucos que tinha de ir para São Paulo ou Rio, porque as pessoas das gravadoras eram todas de lá. Saí de casa sem avisar ninguém, com pouco dinheiro, na virada de 1967 para 1968. Cheguei no Rio, achei que encontraria as pessoas e daria tudo certo, mas não foi: fiquei 10 dias em um hotel da Praça Tiradentes, o dinheiro acabou, tive que sair. Passei três, quatro dias entre a Cinelândia e o Aeroporto Santos Dumont. Na primeira noite, tirei um cochilo nas escadarias do (Teatro) Municipal. Quando acordei, o violão não existia mais... Como você saiu dessa situação?Na Praça Tiradentes tem o (Teatro) Carlos Gomes de um lado e o João Caetano de outro. Percebi que o Carlos Gomes era um ponto de músicos. Havia de todos os tipos, além dos programadores das casas noturnas. Eles se encontravam ali para conversar e agendar trabalhos. Aí tive a chance de me apresentar na noite. Comecei a me sustentar. E também fui aprendendo, porque cheguei muito cru: fui vendo que as músicas que eu tinha no meu caderno não estavam prontas. Que impacto Roberto Carlos e a Jovem Guarda proporcionaram no seu estilo? Quais são suas influências?Quando era menino, eu ouvia rádio, Nacional, Mauá, Mayrink Veiga. O que ouvia? De Nat King Cole a Beatles; Frank Sinatra, Ataulfo Alves, Dolores Duran, Luiz Gonzaga, Tom Jobim e, claro, Roberto Carlos. O Roberto fica maior quando aparece a Jovem Guarda. Ele foi tomando conta do espaço e mostrando para a gente que tinha o desejo de virar músico, de que era possível. Outro detalhe: eu sempre fui admirador do compositor. Ele fez muito sucesso com versões, mas começou a compor. No Brasil, existia o intérprete e o compositor, que fazia música ao intérprete. A junção de ambos cresceu muito com Roberto Carlos. Como foi a estreia em disco?Primeiro, gravei um disco independente. Um cara rico que me conhecia na boate onde eu cantava me pagou para gravar um disco. Gravei com Rossini Pinto (que era produtor da gravadora CBS, atual Sony Music). Ele imprimiu 500 compactos, me deu 250 e eu fui com esses discos embaixo do braço (com as músicas Uma Lágrima e Ajuda-me) rodar o Rio de Janeiro. Consegui colocar em quinto lugar nas paradas do Rio uma música que não tinha pra vender nas lojas. Foi aí que a CBS me contratou. Era 1969. Você abordou temas polêmicos nas suas canções: falou do amor por uma prostituta, das empregadas domésticas, sobre o amor homossexual... Como você chegou à sua temática?Quando sou contratado (pela CBS), conheço muita gente, inclusive o Raul Seixas, que já estava lá, trabalhando como produtor. A gente conversava muito como iria se colocar no mercado. Já tinha Jovem Guarda, bossa nova... Era muito difícil tocar no rádio, porque o espaço já estava ocupado. Para tocar era preciso ter algo muito bom ou diferente. E na época o rádio era onde tudo acontecia. No meu primeiro disco, em 1970, eu ainda estava no som da CBS, do amor juvenil, a Jovem Guarda. Em 1971, gravei Vou Morar com Ela, que já era uma proposta estranha: em um tempo em que se roubava um beijo no portão, o cara não ia nem casar, ia morar com ela... Depois, cheguei para o Rossini Pinto: ‘quero gravar Eu Vou Tirar Você Desse Lugar’. E o que acontece? Vendo o absurdo de um milhão de cópias do compacto, quando nem havia um milhão de vitrolas no Brasil. Você achou um filão e colocou o dedo na ferida...Não era só por causa do filão. Foi a maneira que eu achei de fazer as observações do que eu via. Eu me acho um compositor que é um cronista: faço observações sobre o que vejo, o dia a dia das pessoas, ou fazendo crítica, ou dando alerta, do que eu queria que as pessoas prestassem atenção. Você não entrava numa farmácia e comprava pílula para sua mulher de uma balconista, porque era tabu. A ciência tinha dado para a mulher a liberdade do que fazer com seu corpo, isso tinha que ser popularizado. E a empregada? Não era uma profissão reconhecida, trabalhava todo final de semana sem direito nenhum. ‘Ah, é como se fosse da família’. Assim o governo via, a sociedade via. Como foi sua relação com a censura no período?Quando lancei Eu Vou Tirar Você Desse Lugar, recebi uma carta para comparecer na censura. Um careta me recebeu para dizer que não caía bem a frase ‘vou tirar você desse lugar’. Ele se referia ao governo. Então expliquei que não era sobre o governo, mas sobre o amor de um homem por uma prostituta. O cara ficou vermelho, branco, amarelo... ‘Pior ainda: olha o que o senhor está falando’. (Na época) de Uma Vida Só, da pílula, em 1973, eu fui a São Paulo fazer o Programa Sílvio Santos. Cheguei lá e o diretor me avisou ‘tem duas pessoas querendo falar com você’. Fui até uma sala, estavam um cara fardado, outro à paisana, fizeram eu assinar que, a partir daquele momento a música estava proibida de ser executada no País. Aí, fomos até Brasília, eu e o advogado da gravadora (eu já estava na Phillips). O cara disse que não ia liberar coisa nenhuma, porque o governo tinha um projeto de distribuir anticoncepcionais para o controle de natalidade, e não ficaria bem uma música dizendo ‘pare de tomar a pílula’. Hoje, a música brega é considerada um nicho importante da MPB, mas você refuta o adjetivo – mesmo que, na origem, o apelido tenha sido colocado de maneira pejorativa. Por quê?Esse tipo de colocação ‘é brega’, a gente sabe que é para apontar algo de mau gosto. Nos anos 70, não existia esse adjetivo. Começou com a novela Brega e Chique, nos anos 80. Me incomodo o sujeito achar que minha música é ruim? Não, ele tem o direito de não gostar, mas eu não gosto desse tipo de definição. A música é maior do que uma definição tão simplória. A tecnologia mudou muito a forma da música ser distribuída e divulgada. Como vê o panorama atual?O avanço da tecnologia ajuda muita coisa e atrapalha muita coisa. Antigamente, você tinha que passar pelo crivo das gravadoras, com os produtores. Depois tinha que tocar no rádio. Hoje, é diferente: eu faço o que quero, tenho liberdade. Isso é bom? É, acabou a intermediação. Mas, por outro lado, tem gente que faz de qualquer jeito em casa, coloca na rede social e acabou. Hoje, na internet, há repetições de fórmulas, não tem arte. O artista tem obrigação de trazer novidades, de pesquisar. Como está essa inquietação artística? Tem projetos novos?Estou com o projeto Seres Humanos, em que vou falar das coisas dos seres humanos. Acredito que termine até o final do ano e coloque no mercado ano que vem. Quero levar reflexões sobre os seres humanos. Seja na emoção, no amor, na raiva, na hipocrisia – na falta de humanidade. Tentando fazer as pessoas entenderem que o poder não está nem com o presidente da República nem com quem tem muito dinheiro. O poder é outra coisa: é valorizar o espírito. Tem que parar com essa história de achar que, se está com dinheiro no bolso, está com tudo.