[[legacy_image_272109]] Ele é música da cabeça aos pés – incluindo o futebol: foi por causa de Elvis Presley que começou a torcer para o Flamengo. Aos 76 anos e uma rica história na Música Popular Brasileira, o que menos se esperava de João Bosco era essa faceta roqueira. Mas, como todo adolescente no final dos anos 50, ele foi fisgado, não só pelo Rei do Rock, mas sobretudo por Little Richard. “Depois, você descobre que é tudo da música negra, dos americanos, lá do Mississipi. Começam a expressar sua dor através do blues, que vai passando de compositor a autor e surge o rock”. Samba? Bossa nova? Jazz? Se a música fosse uma árvore, João Bosco teria mirado a raiz, e não apenas um galho ou outro, o que faz sua obra merecer uma classificação à parte na MPB. Hoje, celebrando 50 anos de carreira, o coautor de O Bêbado e o Equilibrista declara ainda seu desejo latente pela música. E garante que deve chegar álbum novo no segundo semestre. “Estou trabalhando em um repertório inédito. Tem coisas minhas com Aldir (Blanc), que ele me deixou em texto, mas tem coisas com Francisco Bosco (filho de João), com Martinho da Vila, Também estou combinando com Capinam”. Leia a seguir a entrevista completa. Você disse que o rock foi uma escola importante na sua vida. Por que não se tornou um roqueiro? Eu tive o meu grupo de rock, a gente tocava em Ponte Nova (cidade natal, em Minas Gerais), nas cidades vizinhas. Era repertório de Elvis, Little Richard, algumas canções do Pat Boone. Depois chegou o Chubby Checker com o twist. Mas eu já tinha amigos tocando uma coisa chamada bossa nova. Na minha casa, minha irmã mais velha era pianista... Tive um repertório diversificado, em que o rock também estava. Quando fui a Ouro Preto, em 1962, com 15 para 16 anos, fiz amizade com estudantes que tinham uma discoteca ainda mais diferente da que eu conhecia: jazz, algumas coisas que misturavam jazz e bossa nova... Era muito efervescente, acontecendo ao mesmo tempo. Como é que você escolhe o caminho? Na verdade, é a música que pauta esse caminho. É impossível definir, categorizar a sua música. Fruto desse ecletismo? Eu não saberia falar sobre ela. Reconheço uma inquietação. me lembro quando fiz Agnus Sei (primeira canção gravada, em 1972), sentia que alguma coisa estava acontecendo comigo. dentro de mim, além da música, mas a partir dela. Descobriu o que acontecia? O efeito que essa canção teve foi uma espécie de liberação do que viesse a acontecer dentro da minha cabeça, sem me importar com algum tipo de gênero musical: é o que eu me proponho a fazer e pronto. Daí vem essa quantidade de coisas: Bala com Bala, Caçador de Esmeraldas. Elis me disse uma vez: ‘não sei o que você vai fazer da sua vida, mas não deixe de fazer isso, essa coisa estranha que você faz’. Ou seja, era a Elis me incentivando a fazer essa experimentação. Esses são os caminhos da vida, que vão moldando a trajetória. Com Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, de 1967, os Beatles lançaram o conceito de álbum como uma entidade artística, uma unidade para ser ouvida do começo ao fim. Hoje, com os streamings de música, observa-se o contrário: a pulverização da música. Como você vê isso? Como se adapta? Não me adapto. Eu entendo: a vida ficou muito mais açodada, apressada; as pessoas não têm tempo para mais nada, a vida ficou mais difícil. O dinheiro passou a ser capital na vida das pessoas. Vivemos uma concentração de renda fortíssima no mundo inteiro, fazendo com que grande parte da população tenha que se desdobrar para sobreviver. o tempo mudou. há um reducionismo em tudo na vida. Enfim, eu entendo, mas não entro nessa: gravei em 2020 o meu DVD Abricó de Macaco, como fizemos todos os outros. Continuo achando que esse conceito que você definiu bem, a partir dos Beatles, é o melhor conceito que um compositor pode ter, em que ele faz um balanço de seu tempo, que resulta em um disco. Ele registra o que aconteceu com ele e o que está em volta. Uma coisa depende da outra. Sempre tive dificuldade de fazer roteiro de show escrito por isso: dependendo de como o show começa, ele pode terminar de outro jeito, é um espetáculo aberto. O mundo na música, e fora dela, empobreceu? Não sei dizer se empobreceu... caberia às gerações mais novas dizerem se estão sentindo falta de alguma coisa, se a vida delas está boa, se elas estão felizes, se a música que elas curtem supre as necessidades. Tenho minha maneira de fazer música, de ver a música. Inclusive, neste momento, tem uma inteligência artificial compondo. Se você quiser música de mozart, ela fará... se quiser um Elvis Presley em 2025, terá... estamos vivendo um tempo complicado, que foge ao nosso mundo analógico. Mas eu estou feliz com o que eu faço, com o que eu vejo outras pessoas fazendo. e espero que as gerações novas também possam encontrar essa felicidade no que fazem e ouvem. Um dos grandes mistérios da MPB foi a ruptura entre você e o seu grande parceiro de música e vida, Aldir Blanc. O que aconteceu no final da década de 80 para a separação? E como vocês se reencontraram, 15 anos depois? O Aldir e eu já tentamos explicar várias vezes. A gente sabe que todas as explicações não são satisfatórias, porque a gente não sabe de fato o motivo pelo qual nós nos separamos naquele momento. Ele já disse que é porque eu sou flamenguista e ele era vascaíno... (risos). A única coisa plausível que me ocorre hoje é que, por termos começado em 1970 a trabalhar ininterrupta e intensamente, que talvez isso tenha causado uma fadiga natural. Há um momento em que você precisa de um respiro. É a única explicação plausível, porque quando a gente se reencontrou, foi como se a gente houvesse se visto na noite anterior: não dissemos nada, começamos a trabalhar de novo. A produção Blanc/Bosco transcorreu em sua maioria nos anos 1970, sob a ditadura. Há quem diga que a repressão ajudava a arte, pois era preciso ser criativo para driblar a censura. Concorda com isso? É o pior: você tem a vida vigiada, policiada; as suas ideias são restringidas, Não pode ser pior para qualquer ser humano, especialmente aquele que gosta de criar. Então, não acho que a repressão seja combustível para a criação. A vida tem as dificuldades de cada momento, as suas ‘trapaças’. A própria Tropicália surge dentro nesse momento. Quando Gilberto Gil faz com Capinam Soy Loco por Ti America, ‘o nome do homem morto/já não se pode dizer’... essa liberdade de expressão existiu, apesar da ditadura. Aldir e eu fizemos isso com criatividade, não ficamos preocupados em combater aquilo só por combater. Fizemos a nossa arte como ela se parecia naquele momento. Como vê o Brasil hoje? É difícil definir coisas tão complexas e que se modificam a cada instante. Não é só no Brasil. Tem muita coisa em jogo. O mundo está inquieto novamente. Há uma geopolítica que está se modificando, criando situações de conflito, que se replicam na economia, que vai dar no trabalho, chegando ao indivíduo. O que a gente pode fazer é o nosso trabalho, da melhor maneira possível, com todo comprometimento. Cada um na sua área. Você é formado em Engenharia e adora futebol. Se os caminhos da vida não o tivessem levado para a música, o que imagina que estivesse fazendo hoje? O poeta norte-americano T.S. Eliot, escreveu: ‘aquele que poderia ter sido/e o que foi/deságuam no mesmo tempo presente/aqui, agora’. Não posso especular sobre algo que não vivi. Fui músico, sou músico e serei músico. E vai continuar Flamengo... Claro! Não escolhi o time vendo o Flamengo jogar. Eu estava lá em Minas, em 1958. Vi num álbum a figurinha de um jogador chamado Dida, que tinha um topete parecido com o do Elvis. ‘Poxa, não sabia que o Elvis jogava no Flamengo’. O Elvis me jogou para o Flamengo (risos). Ele era um grande jogador, seria titular na Copa daquele ano (a da Suécia). Mas o Pelé, com 17 anos, entrou e nunca mais saiu. À luz desses 50 anos de carreira, qual o seu maior sonho? O que não pode faltar é o desejo pela música. de ir ao encontro dela. Ao mesmo tempo, uma dedicação, no sentido de estar preparado, para quando a música surgir, eu estar preparado para entendê-la e traduzi-la como ela quer. Enfim, desejo cobiçar a música. É isso o que eu preciso manter, e que até este momento em que estamos conversando, eu sinto dentro de mim.